domingo, 9 de janeiro de 2011

Fadas

E seus ombros encontraram a cama, e os cotovelos empurraram dedos que se entremearam sob o travesseiro desaparecendo sob o mini útero macio entre a fronha e a cabeça, e ele já era completamente outro. Ele era uma massa indiferenciada de saudades e desejos, ele era ela e era ele e era também as cores frágeis daquele dia que fugia enquanto ele se perguntava se já havia se sentido assim antes. Aquela noite ele havia transcendido toda a possibilidade de sanidade, mordia os lábios e inspirava profundamente, tanto que seu tórax parecia se rasgar por dentro. Queria ainda resgatar o cheiro do cheiro dela por entre as roupas de cama, suas coxas ainda procuravam a tez da nudez dela enquanto as horas, pequenas deusas do destino, lhe volitavam ao redor da face. Ele sabia disso porque quando criança seu irmão lhe havia dito que se pressionasse bem forte as pálpebras antes de dormir veria alguns chapiscados luminosos na borda dos olhos e eles eram as horas. Algumas culturas chamam de fadas, porque elas regiam o fatum, o destino humano. Eram a divisão, a ponte e o selo entre este mundo e o outro. Ele já havia, visto, à noite, uma delas viajar disfarçada sob o peito de um cisne e acampando, um dos olhos percebeu qualquer risada infantil cuja manhã lhe trouxe uma maçã redonda, vermelha, perfeita. Ele sabia. Seu relacionamento com fadas era já de alguma intimidade, talvez justamente porque nunca lhes tenha pedido nada, um favor, um segredo (e uma de suas brincadeiras preferidas é esconder-se atrás da orelha de quem recebe o segredo – dizem ser por isso que muitos escapam para várias outras orelhas e talvez por isso também sinta-se, em português, aquela incômoda “pulga” atrás da orelha quando temos premonições), nada. Ele sabia que elas concederiam, apenas para poderem sumir transcendendo facilmente as contingências das três dimensões, brincando através do espaço para brincar ao tempo e voltarem, talvez, a seu berço, na infância, quando seu irmão lhe disse pela primeira vez sobre fechar bem, muito bem, os olhos. Ele não pediria conselho ou segredo, ele não as queria desaparecidas. Elas agora piscavam com força ao redor dele como um pequeno réveillon visto pelos infinitos periféricos do olhar. Ele mergulhou no infinito das fronhas e lençóis. As bocas, da face e do estômago, se pressionaram como os olhos e ele começou a acreditar que a ausência dela, tão presente ali naquele ventre de tecidos, espuma e carne, lhe trazia também água na boca e borboletas no estômago.

Renato Kress

4 comentários:

  1. Adorei a relação feita entre o tempo, as fadas e o destino. Ah, como seria bom se pudéssemos resgatar momentos especiais, um sorriso, um cheiro, um olhar, um carinho, um beijo... travando bem os olhos e, dessa forma, pedindo às fadas que os trouxessem de volta ao nosso mundo real, dominado pelo tempo, tão cruel e paradoxal "inimigo" das fadas...

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  2. "as horas, pequenas deusas do destino". Linda metáfora. Adorei o conto, realmente inspirador.

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    1. Fico super feliz que tenha curtido o conto, Mari. O significado de "fada" é mesmo "fatum", que pode ser traduzido por "fato" ou por "destino"... doidera né?

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