segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Com ciência

- A alma, Pandora, é como essa caixa. Uma vez aberta, só as Moiras sabem a sorte e a garra dos demônios que saltarão sobre o seu pescoço... Mas qual a esperança para a aventura de uma alma aprisionada, não é mesmo?

Conto por Renato Kress

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Entre Gnomos e Ogros

Vê estes galhos retorcidos lá no alto da colina? Você já encontrou as pedras e restos de paredes e louças brancas que sobraram por ali, não é mesmo? Impossível esconder qualquer coisa de vocês nessa idade! Bem, acho que você já tem luas suficientes para que eu sacie sua curiosidade.

Dizem por aí que havia ali uma vasta torre de pedra, com três andares. A torre pertencia a uma senhora que muitos consideravam uma poderosa feiticeira. Na verdade ela talvez fosse apenas uma mãe solteira, sabe? Naquele tempo mães solteiras eram feiticeiras, claro! Afinal, quem poderia gerar vida sozinha, não é mesmo? Talvez a Virgem, mas isso cada vez mais é privilégio das histórias dos padres, claro.

Bem, essa senhora viva na torre com sua filha desde quando essa menina tinha memórias. A pequena, branca como louça e com seus cabelos negros e olhos de ébano, nunca havia conhecido seu pai. Se é que havia pai para ela. O fato é que ela nunca havia visto um homem.

A mãe ia, diariamente, às terras abaixo da colina plantar e colher, trazer barro para coser pequenas lajotas de louça branca com os quais ela estava recobrindo a torre de baixo àcima. Abaixo da torre e ao seu redor se estendia uma grande floresta. Nos limites dela havia um grande castelo, que a pouco tempo pasara a pertencer a um rei jovem e arrogante. Afinal, qual rei jovem não é arrogante? A questão é que, por alguma razão esse rei não invadia a floresta e nem permitia que seus homens o fizessem.

Um dia, ao acordar bem cedo, a jovem menina desceu correndo para ver o nascer do sol e a dança dos girassóis. Abrindo com pressa o portal e os trincos, ouviu um gemido baixinho de alguma criatura que agora corria movendo a relva. Seus olhos negros brilharam de curiosidade enquanto seus pés correram atrás do barulho. Mas ela não encontrou nada. Então sentou-se para ver o sol nascer.

Depois de alguns minutos sentiu um empurrão do chão. E outro mais forte. Então levantou com pressa e medo de haver sentado em uma cobra ou casa de toupeira! Qual não foi sua surpresa ao encontrar um ser como ela, uma pequena menina gorducha vestida com tiras de couro e com muitos fios pretos presos ao queixo? A menina pequena lhe explicou que não era uma menina, mas um gnomo e que vivia ali, nos buracos das cobras e toupeiras, trabalhando com as árvores. Quando as raízes das maiores árvores mergulhavam no fundo dos sulcos ele encontrava água para beber e, quando a terra secava ao redor das árvores mais velhas, ele encontrava minérios, ouro e até jóias brilhantes. 

Tirou do bolso um rubi e uma esmeralda e mostrou à menina. Ela, em troca, lhe mostrou uma fileira incrível de pérolas quadradas que estavam logo atrás de seus lábios. Ele gostou de ver as pérolas e, dali por diante, passou a sempre mostrar pequenos achados da terra para a sua nova amiga. Todas as manhãs ela saía, antes que sua mãe acordasse e se encontrava com o gnomo: Ele trazia quartzos e ficava arrepiado com as "pérolas" que ela mostrava. Um dia, com pressa, ele tropeçou e espalhou ágatas, ametistas e safiras pelo chão, então ele viu que ela mostrou as pérolas dela com ainda mais animação! Estranho que, nesse dia, quando o gnomo foi procurar as pedras espalhadas pela grama, só encontrou metade delas! "Bem, com certeza amanhã o sol vai brilhar bem forte logo cedo e aí eu vou encontrar as minhas pedras de novo!", pensou enquanto voltava para sua casinha embaixo da terra.

Algumas semanas se passaram e o gnomo percebeu, triste, que as pedras já não faziam a menina mostrar suas pérolas com tanta frequência. Além do quê, ele estava preocupado com alguma cobra que poderia estar roubando os quartzos, citrinos e granadas que ele às vezes deixava cair pelo chão. Depois de algum tempo a menina sequer olhava com atenção para ele e, outras vezes, os olhos dela brilhavam com uma luz estranha...

Um dia, quando o gnomo vinha à toda pelo gramado arrastando atrás de si um enorme saco com um rubi que fora do avô de seu avô, na esperança de ver de novo todas aquelas lindas pérolas que a menina havia mostrado no primeiro dia em que se encontraram, ela não estava lá. Ele teve de dar a volta ao redor da torre de louças brancas e seu coração se encheu de alegria ao começar a ouvir a voz dela! Cada vez mais alta! Mas, ao alcançar sua voz ele alcançou também uma pontada forte no peito. Ela estava mesmo ali, atrás da torre, e com ela havia um grande Ogro, do dobro do tamanho dela, com as mãos na cintura e ombros peludos. Ele mostrava também pérolas para ela e ela, esfregando os joelhos um no outro, arreganhava suas pérolas para ele. Do mesmo jeito como fizera pela primeira vez que havia visto o gnomo! 

O Ogro recebeu dela um grande saco de pedras, que ele abriu e jogou sobre as mãos, animado: Eram as pedras perdidas que o gnomo procurava a tempos! Pela primeira vez o gnomo sentiu chover nos olhos, mas quando olhou para o céu, não havia núvens, nem orvalho na grama, só nos seus olhos. Ele sentou na grama e escondeu o grande saco numa fresta entre as pedras da torre.

Dizem por aí que o saco nunca foi encontrado, que a menina casou com o Ogro. Dizem também que o Ogro acabou morrendo de um acidente na floresta e a menina - que já não era mais menina - foi morar com um Ogro ainda maior e mais rico. É o que dizem. Também dizem que o corpinho do gnomo secou ali, sentado, e virou uma pedra que ainda está lá. Uma pedra sem valor. Mas você sabe: dizem coisas demais por aí...

Conto por Renato Kress

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Odisséias

Sinceramente eu não sei. Não sei ao certo que tipo de demônio tragava todas as minhas esperanças para aquela curva na córnea do horizonte, onde outros loucos avistavam uma ilha. Lembro-me da história que minha mãe contava, de que ao atravessar o oceano comigo, meu pai acordou aflito, por duas noites seguidas, e me encontrou arranhando a parede do navio. Sempre na mesma direção. Um grande arranhado que acompanhava a curva que o comandante fazia. Talvez seja isso. Talvez eu sempre estivesse à procura dessa ilha.

O balanço das cordas roçando pelas minhas pernas e axilas me avisou que o barco se prendera nos recifes. Subi correndo as pedras, abandonando barco, razão e as vozes inebriantes da taverna na noite anterior. Era puro instinto. Pé ante pé diante de um matagal envolto em uma luz leste que vinha crescendo como um filete de sonho sob as silhuetas macias das árvores. Eu era as árvores.

Antes que o correr das águas de uma cachoeira me encontrasse a oeste eu sabia. Meu coração antecedeu pulsando o barulho da queda d´água, a clareira e o lago. Meus joelhos mergulharam na grama envergando aquela néctar cristalino para dentro da minha garganta. Sorri e pelas bordas dos lábios me escorriam filetes da mais ingênua felicidade. Aquilo que não se deveria negar a nenhum homem pode ser o maior dos tesouros quando tudo que se tem de si é o ser homem. Sem roupas, sem histórias, sem passados. Batizei-me entre as pedras e as curvas da queda. Eu era as águas.

O pensamento quis balbuciar qualquer coisa sobre escalar, mas o instinto fez coro com a intuição berrando estridentes que havia um caminho lateral. Contornei as pedras numa escalava suave, secando a felicidade no sol que seguia a minha subida, sorrindo comigo. É inexplicavelmente simples quando se começa a ouvir o murmúrio do teu íntimo. Ouvi a primeira vez em Budapeste, depois passou-se um longo silêncio até a França e agora aqui. Aqui ele grita, ele berra, ele urra na minha alma! Ele arrebenta as artérias e os sacos de ar no meu peito enquanto encontro as ruínas verde e brancas de um palácio que sempre fui eu.

Não enviem resgates. Não procurem meus ossos. Agradeço o carinho de todos os que se dedicaram de bom grado a me fazer ser o que esperavam de mim. Entendo seus sentimentos. Obrigado. Mas aquele não era eu. Eu sou a ilha.


Conto por Renato Kress

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Almas gêmeas

Enquanto isso, naquele site de relacionamento:

- Oi, gostei da foto. Você é enfermeira, médica?
- Não. Farmacêutica. Me chamo Indústria. "Farmacêutica" é só o titulo.
- Interessante. E você faz o quê? 
- Crio doenças, remédios com vários efeitos colaterais, pago congressos de fim de ano em resorts de luxo para os médicos que baterem minhas metas de vendas, essas coisas. E você? Esse "M.F." é de quê? Marco Feliciano?


- Não, que absurdo! Eu tenho escrúpulos! Quer dizer, um pouco mais... prazer, Financeiro, Mercado.


- Que imponente esse nome! E você faz o que? 


- Engraçado... tava aqui pensando. Acho que fazemos a mesma coisa. Onde você falou "doenças" eu falaria "crises", "remédios" eu já trocaria por "pacotes econômicos do FMI" e "médicos" por "correntistas da bolsa" ou "empresários de comunicações".


- Incrível, não é? E a gente acha que não vai encontrar ninguém nesses sites... você acredita em amor à primeira teclada?


- Eu só acredito em interesse, na verdade. E você?


- Agora eu acredito em amor...


por Renato Kress

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A ilha P´ong-lai

As pontas dos dedos eram puro hematoma pisado, cascas de calos amarelados e unhas cercadas de pequenas postas vinho escuro de sangue coagulado. Os músculos do punho, das costas e joelhos se retesavam juntos, enquanto ele vencia as últimas escarpas pedregosas que separavam o leito do rio cuja vazão já se tornara um murmúrio vencido depois de oitocentos metros de escalada. A névoa lacrimejava seus olhos e algo de ácido irritava suas narinas quando finalmente sua mão esquerda encontrou um ângulo reto entre a parede de rochas e o chão de gramíneas. Era ali.

Os primeiros passos, mórbidos, pesaram suas costas sobre seus joelhos cansados e quase o tragavam ao chão. A névoa ácida bruxuleava pelo caminho e qualquer coisa que estivesse a mais de três metros não era mais que uma espécie de contorno sutil ondulando em frente a uma nuvem de cegueira branca. Depois de vinte passos na direção do cheiro ácido que parecia ventar de algo imediatamente à sua frente, seus olhos viram pontos amarelos, luminosos, voando sobre a névoa. À medida que seus joelhos traziam os "vagalumes" até que se tornassem tochas, ao seu lado, ele pôde perceber a silhueta de uma casa de madeira ao mesmo tempo em que o vento lhe cortava um zunido estridente nas orelhas e passava por entre as frestas de lã do seu casaco irritando a área dos rins. As barras molhadas das calças começavam a ficar irritantemente frias no momento em que seu punho encontrou a porta, fazendo um barulho oco, mais baixo do que ele esperava.

Os olhos amendoados de uma menina de não mais de nove anos abriram a porta e o convidaram a entrar. Seus dedos ágeis indicaram que o sapato não entraria para além da soleira da porta e, enquanto ele descia as mãos para desamarrar o cadarço e o velcro da bota, a menina sumiu. Foram menos de três segundos para que ela voltasse com um balde de cerâmica negra e interior dourado, com uma infusão fumegante com um cheiro intenso de ervas e eucalipto. Aquela rapidez só era menos inquietante que o sorriso dela. Deixou o balde sobre o assoalho em frente a uma cadeira e novamente indicou, agora com o olhar, que ele fosse se sentar por ali, com os pés naquele refogado aromático.

A casa pareceu a ele muito maior por dentro que por fora, toda acarpetada nas paredes com tapeçarias que provavelmente pertenceram à bisavó da menina. Eram faisões, fênixes, grous coroados,  pavões, perdizes e outras aves que ele não conseguiu identificar numa profusão inebriante de cores e formas e qualidades variáveis de trançado. Tudo muito bem conservado e limpo, principalmente os fios de ouro que cintilavam por todas as tapeçarias. Ele perguntou à menina sobre sua avó e recebeu, como resposta, um pano quente que foi amarrado sobre sua testa e um chá quente, forte e amargo demais para ser tomado de primeira, ainda que ele tivesse muita sede. O chá veio na mesma cerâmica pintada de negro, com o mesmo interior dourado e luminoso.

Ele voltou a perguntar sobre a avó, a menina voltou a oferecer o chá. Com certeza não falavam a mesma língua, apesar de ele já estar naquela estranha ilha por dois longos anos essa era a segunda pessoa com quem se encontrava. A primeira era um demente alucinado, com certeza. Oito estações do ano em busca daquela casa, no alto daquelas pedras, e parece que a dona não estava. De qualquer forma a neta fazia o seu melhor e, com o calor nos pés, vinham os sons de grandes asas batendo ao seu redor. Ele procurou o som, mas a menina apontava intensamente para o chá.

A cada gole o som do bater das asas ficava mais nítido, as cores das tapeçarias pareciam se mover com as sombras das aves como se levantadas por algum vento e todo o amarelo das asas das aves parecia começar a escorrer em direção aos seus pés. Foi quando ele sentiu um frio pela espinha que desceu formigando seus órgãos internos. Uma vontade incontrolável de urinar fez com que ele fechasse os olhos enquanto tentava controlar a bexiga. A vontade passou como veio e seus olhos se arregalaram procurando pela menina, que parecia ter agora uns dezoito ou dezenove anos e deslizava os lábios numa espécie estranha de sorriso.

As mãos quentes da adolescente tocaram as mãos sensíveis, frias e laceradas da subida rochosa e ele viu as feridas se fechando, os coágulos diminuindo, os calos sumindo e a pele rejuvenescendo. Ele olha, assustado, para a linda mulher de trinta e poucos anos descendo os lábios sobre os seus. Ele fecha os olhos e sente seus lábios cicatrizarem das rachaduras do frio, sua língua ficando novamente úmida, seu estômago descolar as paredes e todo seu corpo sendo preenchido por uma sensação quase imaterial de saciedade física, íntima, erótica, intuitiva, espiritual. Seus braços são tomados por um arroubo de energia, seus músculos parecem leves e plenos de vigor.

Instantaneamente ele levanta. Levanta ainda beijando aquela boca doce que vai ficando cada vez mais leve, macia, seca e amarga. Seus braços se percebem tocando uma pele macilenta, murcha e arenosa. Seus olhos se abrem e num grito ele arremessa aquela carcaça idosa que substituíra a bela menina. Ele está em pânico, sua respiração oscila rápida, grave, pesada. Um vulto aparece por trás da cortina, a voz da velha diz coisas incompreensíveis colada ao carpete, segurando com quase nenhuma força ao pé de uma cadeira.

Ainda hesitante, suas costas se arqueiam para perto da cortina e ele puxa um pano frisado para encontrar apenas o reflexo de si mesmo, mas o reflexo de si aos dezesseis anos de idade, não mais aos seus costumeiros cinquenta! Ele sorri, tocando o próprio rosto, deixa que os dedos indicador e médio passeiem sobre seus próprios lábios, enquanto se aproxima de si mesmo arregalando os olhos para o reflexo no vidro, arreganhando os dentes num sorriso lascivo. Sua mente o leva às palavras no manuscrito mágico do alquimista Li Chao-kiun, onde ele recomenda ao imperador Wu, da dinastia Han:

"Sacrificai o corpo ao frio e ao forno (tsao), e podereis atrair seres (sobrenaturais); quando os tiveres feito aparecer, o pó de cinábrio poderá ser transmutado em ouro amarelo; quando o ouro amarelo tiver sido produzido, com ele podereis fabricar utensílios para comer e beber e então tereis uma longevidade prolongada. Quando a vossa longevidade for prolongada, poderei ver os bem aventurados (hsien) da ilha P´ong-lai, que fica no meio dos mares. Na maior escarpa sob o rio dessa ilha sacrificarás a ti mesmo perante a velha e já não morrereis." 

A última frase não parece fazer muito sentido, mas quem se importa? Ele era jovem de novo!! A velha, inútil, fraca e indefesa mal conseguia se erguer do chão! Que importa que por alguns instantes tivesse sido a mais bela das mulheres? Já não passava agora de um saco de pele e ossos sobre o assoalho! Não poderia fazer mais nada! Foi quando sentiu um calafrio nas suas costas. Um calafrio doloroso. A mão correu para a região do rim e voltou empapada em sangue. Ele ouvia o barulho de asas, enquanto as pernas fraquejavam e sua cabeça batia estilhaçando o vidro da janela. Virou-se desesperado procurando pela velha. Ela não estava mais no chão, tudo girava muito rápido, o sangue escorria quente e ele se arrastou para perto da porta ouvindo barulhos de asas. Sua visão embaçava, seus dedos ficavam leves e fracos, por alguns instantes pareceu ver o reflexo de seu rosto, aos oitenta anos de idade, no fundo dourado do balde onde colocara os pés. Olhou seus dedos, ensanguentados, envelhecidos. Gritou e abafou o próprio grito, desesperado, ao ver uma coruja enorme, negra, com o bico encharcado de sangue gotejante, pousar no delicado ombro da jovem menina que lhe abria novamente a porta.

Conto por Renato Kress 

domingo, 28 de julho de 2013

Filiações

- Já percebeu como acontece invertido?

- O que?

- A vida. Esperam que nasçamos filhos e morramos pais. Com sorte avôs. Mas eu tenho que te contar - e eu sei que não vai te surpreender num mundo onde tudo parece estar de cabeça para baixo - que isso não faz muito bem sentido. Na verdade só faz se for invertido. A gente cresce pai e envelhece filho. Cresce pai de idéias, projetos, ações e planos e envelhece filho dos nossos dias, atitudes, posturas e coragens. A gente envelhece e vai se tornando cada vez mais refém das nossas omissões e covardias ou apadrinhado pelos nossos projetos que criam asas embaixo das quais curtimos o inevitável peso do tempo. É preciso criar uma estrutura forte, alicerce robusto ainda que quase sem nenhum peso, afinal, dormiremos nosso mais longo sono abaixo das asas desses dias, talvez essa seja a maior arte da vida, sabe? A intenção daquela palavra enviesada, aquele beijo incerto, a taquicardia ofegante que prenunciou aquela tomada de atitude antes da entrega da sua alma a um novo caminho ou a um novo amor, aquela palavra amarga que terminou uma amizade, aquela distância estranha e intransponível criada entre os que um dia foram íntimos, tudo isso passa. Quando nos damos a esses pensamentos logo fugimos - a mente foge, é a natureza dela - para Shan-gri-lá, para o Éden, Eldorado, Atlântida, acabamos na armadilha aconchegante de idealizar a "toda poderosa" felicidade. Se a felicidade existe? Ela é como um soco na boca do estômago. Ela vem, preenche todo aquele instante, impede que você pense em qualquer outra coisa que não seja ela e depois? Ela passa. A vida é aquilo que passa. O cara que escreveu Don Quixote escreveu que "somos filhos de nossas próprias obras". Que tipo de obra você quer que te cuide na velhice? Precisamos estabelecer marcos, decisões que cavarão passos, tirando pequenas camadas de lama e terra do chão, húmus com os quais ergueremos o casebre ou o palácio de onde veremos que tipo de filhos nos tornamos, que espécie de pais merecemos. Se tivermos sorte cresceremos pais, gerando e criando e espalhando a palavra de nossas vocações, de nossos corações e almas por onde passarmos. Se tivermos sabedoria, até que a matéria de nossas mãos e pés e olhos e bocas se desfaça em átomos que em breve povoarão laranjas, sequóias e turbinas, morreremos filhos dignos dos dias que tivemos. Você acha que se parece com os dias que já teve?

Conto por Renato Kress

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A última praia de Estêvão

Estêvão é funcionário público, gosta de ler e gosta de sol. Acordou antes de Ana, fez um pequeno lanche e saiu, naquele sábado, para a praia, no Leblon. Ele e seu livro do Chico Buarque. Alugou uma cadeira, sentou na beira da praia e leu. Chegou a perceber de relance uma sombra voadora sobre sua cabeça, mas não deu maior atenção. Seu compromisso, ali, antes de Ana chegar, era com as letras. Em dois segundos pulou na cadeira e soltou um sonoro "puta merda!" quando sentiu uma batida de asas desesperadas entre seus joelhos. O pombo ficara preso embaixo da sua cadeira e se debatia arrulhando desesperado.

Sua mão correu para arrancar a ave dali enquanto sua mente corria de volta para todos os estresses e desentendimentos da semana perguntando se nem na "merda" da praia ele teria um pingo de paz! Apertou uma massa de carne dura, musculosa e careca. Não parecia um pombo, mas fosse o que fosse estava bem seguro e ele iria arremessar para bem longe da sua bunda, da sua cadeira, do seu sábado! Sua primeira impressão foi a de que pegara um rato careca, mas não tinha rabo, tinha braços e pernas! Um pequeno homem, de uns vinte centímetros, careca, e estava mastigando metade do corpo do pombo.

Aquele homenzinho careca e nú olhou assustado para Estêvão e praguejou numa língua estranha, com os olhos arregalados. Seu braço esquerdo, preso, entre o dedo médio e o indicador, batia na mão de Estêvão para que soltasse. Entre curiosidade, medo e nojo, Estêvão enfiou homenzinho e resto de pombo no seu saco de pano junto com celular e livro e olhou ao redor. Era cedo ainda, poucas pessoas por ali e ninguém parecia ter visto aquela cena absurda.

O saco se debateu e caiu na areia e ele puxou a corda fechando antes que aquele homenzinho saísse. Depois olhou novamente ao redor e começou a se acalmar, respirou fundo e quis olhar de novo. Precisava reforçar a insanidade ou refazer a realidade, ali.

- Pirú, pirú, porra!
- O quê?
- Porra, caralho, porra, porra!
- Oi, calma! Eu... qual é o seu nome? O que é você? Larga o pombo!
- Nã, nã, meu, meu!

A voz era áspera e seca, como se arranhasse a garganta do homenzinho. Estêvão estava com aquele saco entre as pernas, vendo, lá dentro, aquele pequeno homem nú agachado triturando os ossos das asas do pombo com sua minúscula e firme mandíbula. Sua boca sem nenhum pelo estava encharcada de sangue e, às vezes, ele olhava para cima dando a nítida impressão de que não iria dividir seu café-da-manhã com aquele grande homem peludo.

- Eu não quero! Pode comer! Você... tem nome?
- Dááá, meu meu! - Disse o pequeno virando de costas para aquela grande cabeça no céu da bolsa.
- Já disse que não quero! Qual o seu nome?

E a mão de Estêvão entrou na mochila para apertar aquele ser estranho e careca. A mão precisava confirmar a vista. Dentro do saco o homenzinho se sacudia e tentava não sair, se agarrando no tecido e chutado o pulso e tentando morder aquela mão gigante...

Atrás e bem perto de Estêvão, com uma camisa do Vasco, estava João, instrutor de MMA, treinador de boxe, personal trainer e um cara tranquilo. Tranquilo quando não está com dois sobrinhos pequenos e a namorada, Mariana, sentados de frente para um cara que está, de costas, com a mão enfiada no meio das pernas, falando baixo e sacudindo os joelhos excitadamente no meio da praia!

João pede licença, levanta e vai até Estêvão, respirando fundo com os punhos cerrados.

- Amigo, que porra é essa?
- Hein? - Estêvão levanta os olhos assustado e fecha os joelhos sobre a mochila. Não conseguiria explicar por quê, mas estava completamente envergonhado, rosto vermelho, fala embargada.

- Eu, eu é...
- Mermão, o que é que você tava fazendo aí com a mão entre as pernas, seu animal? Tem criança aqui, infeliz!- e partiu pra cima de Estêvão enquanto falava. Este largou o saco se debatendo na areia e esticou as mãos para se explicar.

- Cara, vira essa mão pra lá! Porra! Cê tá maluco?
- Não, peraí, eu, é...
- Cara, olha só: eu tô com meus dois sobrinhos e a minha namorada aqui atrás e eu não vou ver você com a porra das mãos no meio das pernas se sacudindo na nossa frente! Entendeu? - Os olhos arregalados de João e sua orelha de brócolis diziam a Estêvão que era bom não argumentar muito naquele momento.
- É... tá... aham, desculpa então... eu...
- E não vem pra cima de mim, não, porra! Não explica nada! Fica aí e fica quieto, seu... doente!

Estêvão sentou com o coração a mil, boca aberta e mãos tremendo. O saco continuava se remexendo na sua frente e uma voz rouca saiu lá de dentro:

- Ná, ná... SEU DOENTE!

João já estava de costas. As costas de João voltaram para trás enquanto seu punho acertou em cheio a orelha de Estêvão, que caiu com cadeira e tudo, de lado, na praia quase deserta.

- Como é? Tá de sacanagem comigo, seu infeliz?
- Ná, ná... INFELIZ!
- Não, não, é... o saco! - implorou Estêvão, com os braços cobrindo o rosto, encolhido na areia.
- Quer no saco? Maravilha! Depois quer que eu te espanque onde mais? Pervertido filho da... o que é isso no saco? Tem um bicho no saco?

Estêvão ainda estava engatinhando desorientado e limpando a areia do rosto sem conseguir ouvir direito quando João avançou pra cima do saco.

- O que que tem aí, cara? Você tava passando o pau num gato, seu doente? É um pombo? Que porra é essa?
- É... eu...

O mais óbvio não passou pela cabeça de Estêvão. Na verdade alguma coisa nas entranhas dele estavam reviradas ali, e não era (só) o soco, nem a areia, mas uma estranha vergonha daquele ser pelado se revirando e grunhindo no seu saco. Ele não tinha como explicar. Isso para Estêvão era o maior crime, mais doloroso que o peso da mão de João era a imagem daquele homenzinho nú e careca falando palavrão e babado de sangue dentro do saco. O saco era dele... como explicar?

- Tô falando com você! É o quê? Me dá esse saco aqui!
Puxaram ao mesmo tempo o saco, que voou para perto da água. A confusão estava atraindo pessoas e um guarda municipal se aproximou com o cacetete na mão. Estêvão ajoelhado, João chamando o guarda, o saco perto da água, pessoas se avolumando, crianças indo pegar o saco...

- Tem um gnomo pelado no saco! Pronto! É isso! Me bate se quiser, cara, mas tem um gnomo lá! Pega o saco, olha! Ele... ele comeu um pombo e eu tirei ele debaixo da minha bunda! Pronto! Olha lá, pegaram o saco, vê lá dentro! Vê!

A resposta foi tão desesperada e absurda que as pessoas começaram a rir enquanto duas crianças traziam o saco para o guarda que o abriu de cabeça para baixo, deixando cair um celular, um livro e um lápis, e só.

Desde então Estêvão só pode ser encontrado na piscina do Flamengo, e com Ana.

Conto e receita por Renato Kress

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