quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Tributo aos fracassos anunciados



- Fico me perguntando, com esses teus olhos curiosos, quando você vai começar a falar. Ou se além do que você vê, ainda vai me obrigar a começar essa conversa. Conversas aliviam, garoto. Não importa muito a ocasião, conversas aliviam. Será que você está aqui por isso?

E o homem, amarrado num mastro, a trezentos metros da praia, sobre uma balsa de madeira, sorri alucinadamente como se lembrasse de uma velha piada e cospe um dente que cai quicando no chão e fica preso numa fenda.

- Ahhh!!! Sabe a quantos dias estou empurrando esse dente com a língua, garoto? Esse mesmo aí que você virou a cara quando quicou na madeira. Vai saber quando você estará virando as costas para a vitória de alguém, não é mesmo? Isso aí preso na madeira é uma vitória, moleque! Toda vez que tiramos um obstáculo, por mínimo e imbecil que possa parecer, menino. Olha bem! Esse brilho branco é minha vitória! É provável que seja a minha última, então porque vou esquecer de honrar? Quem vai me impedir de valorizar esse maldito obstáculo cuspido para o quinto dos infernos, a satisfação do gosto do meu sangue enquanto a minha língua passeia por esse último buraco?

Jogou a cabeça para trás com força para tirar a franja de cima do olho esquerdo e bateu oco no mastro. Os olhos se fecharam com pressão e dor. Via fagulhas e pontos negros na periferia do olhar. Encarou o rapaz, sentado num bote, olhando para ele, fixamente.

- Sabe por que isso é uma vitória? Olhando os cacos? Já te explico eles também. Você vai entender o sangue e o dente. Se você veio atrás de uma boa história é bom que tenha boa memória também. Me irrita que as pessoas façam o que eu faço: colocar detalhes e florear os acontecimentos do que realmente se passou. Vamos combinar que o que eu invento é o suficiente? Talvez você aprenda algo com o que vai ouvir, então um brinde!

Olhou atentamente a cidade e o amanhecer, por alguns segundos.

- Eu quero propor um brinde, me olhe nos olhos! Isso. Um tributo a todos os meus fracassos anunciados! Brindaremos aqui, você e eu, um velho pirata e um garoto sem nome. Beberemos o suor que escorre aqui das nossas testas e de nossos rostos. A esse sol que está nascendo! A esse sol vulgar de todos os povos, que não tem a menor dimensão nem consciência de que é o meu último sol. A esse sol que não se importa. A esse sol, a esse sal, a esse mar.

- Um tributo à minha burrice! A como ela começou a carcomer minha vida, quando eu tinha uns dez anos a mais que você deve ter agora. Um brinde a quando fiquei famoso por duas ou três besteiras na cidade e isso chamou a atenção de certas pessoas. Não me lembro bem de tudo, mas uma delas foi ter achado um pedaço de papel molhado no chão, a caminho de uma taverna. Queria usar ele para fazer um desenho para Margueritte, uma linda paixão de bordel. Sem sorrisos! Quando a gente fala "paixão" seguido de "bordel" se entende que a coisa toda funcionava embaixo do umbigo, garoto. O papel era bem trabalhado, fino, e eu fui secado ele usando uma vela. Tava numa mesa de canto, sozinho. Quase ninguém viu as manchas escuras que viraram letras ali. Era uma mensagem para alguém importante. Entreguei a mensagem e isso me deu crédito perante as pessoas certas. Queria dinheiro fácil e o que me pagaram foi com confiança e com ela em alguns dias recebi um emprego diferente. A coisa toda era continuar sendo o tal "rapaz de confiança". Um brinde ao "rapaz de confiança", então! Ouvi tanto isso que por um tempo achei que fosse meu nome. Em alguns dias já sabia fazer parte da tripulação de alguns navios certos, em semanas conhecer pessoas certas, em meses interceptar certos documentos e, em menos de um ano aprendi a afundar uma navalha em alguns pescoços. Guarda que um dia isso te será útil: Pescoços são bons,  dão certeza.

Parou por alguns instantes, jogando o olhar para o perto de sua orelha direita, como se lembrasse algum som em especial ou ouvisse uma voz invisível.

- Seu olhar não me é estranho, garoto. Não me é estranho.

De repente o homem pressionou bem a boca e gritou:

- Um tributo! - Chegou a gota de sal aqui! - A todos os meus fracassos anunciados! Aos pequenos e aos gigantescos suicídios diários! Um brinde a cada paixão de taverna, a cada aperto de mão que me levava para outras praias, países, continentes, a cada milha percorrida e aos pequenos sucessos que não fizeram mais do que esticar minha esperança para que minha vida pudesse comportar mais e maiores fracassos no futuro! Um brinde às aventuras, aos documentos que perdi tentando salvar meu traseiro de balas e lâminas, em especial uma última gota amarga de sal por essa missão última, razão de terem me deixado aqui para morrer, preso nesse mastro, sobre uma balsa ancorada esperando a maré subir. Ninguém se importaria em passar uma corda no meu pescoço e entregar as sobras a uma cova, mas é preciso dar o exemplo aos próximos eus que virão e eu sempre fui um "homem de confiança", então aqui estou, a vista de todos na cidade. Um "homem de confiança", morrendo como um "homem exemplar". Se algum dia tive filhos seria engraçado lhes dizer isso na cara. Vim em busca do segredo que por aqui não é segredo, mas de onde vim é. O segredo de se colorir o vidro. Vocês aqui tem o conhecimento que algumas pessoas acharam que valia uma viagem de três anos e um espião "de confiança", o mesmo conhecimento que algumas pessoas por aqui decidiram que era importante demais para que eu levasse comigo! Um novo brinde! Agora é o bigode que me traz esse suor salgado! Um brinde à filha do vidraceiro, aos olhares noturnos dela, a como ela soube me seduzir e usar. Um brinde a como ela não era sequer bonita, meu Deus! Um brinde aos meus fracassos anunciados, a como ela me contou os segredos das cores dos vidros, enquanto me drogava, e a como ela me fez mastigar mais de vinte cores de cacos enquanto terminava de me amarrar, com o pai, aqui.

Conto e receita: Renato Kress

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Aquele beijo

Foi numa festa. Na verdade no fim de uma festa. Éramos amigos, e ele sempre contava muitas histórias. Fomos para longe das luzes e das vozes. Ele sentou do meu lado, olhou meus olhos e apontou as estrelas. Era sempre assim que começavam as histórias. Pelo menos as dele. À medida que os dedos dele passeavam de constelação em constelação eu ouvia um solo intenso de piano que tocava na minha alma (ou longe? na festa?) enquanto meus olhos, bem abertos, projetavam meu corpo em vôos alucinantes por entre as árvores para depois se perder naquelas estrelas. Era assim que começavam as histórias dele. Era assim que eu me preparava para ouvir.

- "Fecha os olhos e solta a voz no mundo. O corpo retorna pra lá quando tem de retornar. Não antes. Você foge muito, menina. Sabe? Alguns heróis, quando morrem, viram estrela. Talvez alguns de nós, depois de muitas mortes, morremos estrela, mas nunca antes. Para viver - não é respirar e andar ou atrasar nosso enterro enterrando cada dia numa massa cinza inferior à gente mesmo, digo para viver vivido, para tocar a alma do mundo com o caminho dos pés - aí é preciso vários momentos de bem morrer. Mas olha, por favor, não morra antes de morrer."

Ele tocou minha cabeça duas vezes, com força, e sorriu.

- "A gente se engana muito, sabia? Aqui você desaprende. Aí que a coisa toda desanda. Um pouco de tempo e as teias traçadas aí em cima viram a raiz dos piores cogumelos. Você ri? Eles implodem! Com o tempo isso vira um campo minado e aí te convence a parar de acreditar. Primeiro em uma pessoa, depois várias, logo muitas e, por fim, você desacredita de você. É desacreditando que você deixa de morrer e, enfim, morre. Parece que não, mas vai que tem algum sentido, escuta. Quando você desacredita bem desacreditado mesmo no presente ou no futuro é que você não deixa o passado morrer direito, aí, com um pouco mais de tempo, a sua semente morre semente e nunca flor nem fruto. Isso aí, se dominar, vai querer te dar certeza e chão e terra. Mas olha o mundo. Acha que o mundo precisa de mais terra e pedra? E se precisar, não vai ser de você. Você é o que você está se tornando, sempre. Vida vem com a terra, mas é mais que isso, é vento e água e fogo e nunca só um. É, eu bebi... Com o tempo, com um pouco de mente e tempo, você desacreditará no controle do teu pensamento, a palavra que te sai não vai dar medo no mundo para criar o novo, e aí, quando tua palavra perder a magia, quando a voz da sua voz morrer antes do som, a mão vai perder deus e o ato vai brotar mecânico, óbvio, sem dança. E é preciso dançar o futuro, sabe? Como num salão bem cheio, tipo aquele que a gente evita, lá atrás. No salão, na dança, você prevê o movimento, o que você quer do movimento, mas aí tem o salão e os outros dançando e as luzes e a bebida escorrida no chão e a batida do momento. É a batida que dá o ritmo, e a coisa toda é feita de ritmos, sempre. E aí em cima não bate."

Ao longe a gente ouvia "Walk on the wild side". Ele tocou meu peito e colocou a boca no meu ouvido.

- "Bate aqui."

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A banheira de Agamêmnon

A televisão, alta, podia ser ouvida de dentro do banheiro onde ela tomava uma longa e morna ducha. Queria que seu coração desacelerasse, mas mesmo por baixo da água quente e que descia pelas suas costas e cabelo, as pupilas pareciam latejar, as mãos tremiam e uma sensação deliciosa de poder e potência parecia dançar sobre a superfície da pele de Luzia. Os sons ainda ecoavam pela sua cabeça, todos eles.

A televisão não parava: "Um dos mais violentos crimes já presenciados na cidade! Desfigurado e decapitado, por uma pá de pedreiro, o corpo e a cabeça do senhor Manoel Constant foram encontrados em duas lixeiras diferentes na saída dos fundos de uma boate..."

A cabeça de Luzia escorregava pela banheira, mergulhando suas costas trêmulas e nuca sob as águas mornas, na esperança de controlar a respiração curta e acelerada, ritmada pelo coração e as pupilas dilatadas. Ainda submersa sentia o som e a vibração do ferro e a textura da madeira sobre seus dedos leves e gelados. Os sons ecoavam pela sua cabeça. A cada vez que emergia a cabeça daquele lodaçal e frenesi de si mesma, abria bem olhos e ouvidos. Pedia para ouvir mais que a televisão, queria ouvir alguém na porta, arrombando, esmurrando, apontando armas e dedos para ela.

Mas era só a repórter, com mais detalhes. Todos inúteis: "Na pá ajuntadeira quadrada número quatro da marca momfort não foram encontradas impressões digitais, apenas as marcas do sangue da vítima que espirrou na parede e no chão do beco na entrada lateral da cozinha da boate. Ao que parece não houve nenhuma testemunha e a música deve ter abafado os possíveis sons..." Agora era só manter o drama e mostrar novas imagens por trinta minutos para alavancar o ibope e vender horário comercial.

Luzia olhou para a tampa da privada, as duas luvas de couro e látex estavam ali, como se sorrindo. Ela ainda não conseguia parar de tremer. Mesmo sentada na banheira não conseguia firmar os pés e achava que ia desmaiar. Girou a torneira enquanto a chuveirada se tornava um filete de água delgado que ela deixou escorrer pelo meio dos seus cabelos até a testa, descendo pelo nariz para ter seu mergulho interrompido pela língua de Luzia, que num bote, tragou aquele último vestígio de sentimento. Seus olhos arregalaram para imediatamente cerrar, enquanto suas pupilas voltavam ao normal. Um último calafrio percorreu seus ombros e desceu pela sua espinha até seus pés, que imediatamente pararam de tremer. Ela se vestiu, se perfumou e esperou. As luvas não sorririam para sempre. Eles chegariam a qualquer momento.

A televisão nunca disse que "Manoel" Constant, a "pobre vítima de um ataque de fúria assassina, que deformou a lateral esquerda de sua face e o decapitou a golpes de uma pá ajuntadeira quadrada número quatro", o "pai de família e sóbrio homem de negócios haitiano", o "gentil pai e amigo" pelas palavras de seus vizinhos entrevistados, era um refugiado. Menos ainda mencionaram ser ele um tipo específico de refugiado. Alocado no "Queens" com ajuda do governo norte-americano, Mr.Constant degustava sua merecida aposentadoria como chefe da força paramilitar haitiana FRAPH através da qual ele foi responsável direta e indiretamente pelo assassinato de quatro ou cinco mil haitianos, no início da década de 1990. Dois desses haitianos ainda sorriam, em preto e branco e sépia, com os rostos colados num emaranhado de 3x4, na carteira de Luzia.

Receita e conto: Renato Kress

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Um pouco de "para sempre"


Nossa, sinto uma saudade às vezes de você, sabia? Penso que sou louca. Devo ser. Como pode uma saudade tão boa de algo que talvez nunca tenha existido e nunca voltará - como poderia, não é? E fica aquela lembrança do seu sorriso, carregado de carinho e perversão. Penso que a vida vale a pena por esses detalhes ridículos, tolos, banais. Será? 

Aquele ano novo que passamos juntos na areia, quando transamos no banheiro daquele conjugado, rindo na orelha um do outro para não acordar minha irmã, o namorado dela e mais dois amigos que fingiam que dormiam no quarto. Tenho certeza de que desse dia você se lembra. Difícil vai ser você lembrar daquele dia que pedalamos juntos e conversamos sentados nas mesas de pedra enquanto você ficava pegando sol, me respondendo sem me olhar.

Eu te via o tempo todo, sabe? Mesmo quando você não estava nem aí para mim. Eu sempre te vi. Acho que te via antes de te conhecer. Talvez por isso não te telefone mais. É que você está como sempre esteve antes de estarmos juntos. Você está sempre dentro.

Eu queria não ter tido você para não saber o que é te perder, perder você chegando do supermercado com sacos de macarrão e molho de tomate dizendo que ia cozinhar pra gente, você começando a cortar o tomate para fazer o molho e me pedindo ajuda pra picar o manjericão, depois a cebola e a cenoura e quando via eu já estava mexendo a massa, com tudo cortado e você baixando meu short e beijando minha nuca, ali, na beira do fogão. Acho que você nunca cozinhou nada que eu não terminasse, mas não posso reclamar, você também nunca terminou antes de mim.

Acho que a vida é feita dessas coisas sabe? Percebi outro dia, tropeçando com você na rua, apressado conversando com uma morena muito alta, que não tenho nenhuma foto sua comigo. Não sei se gostaria ou não. O fato é não tenho. Nem para desgostar da foto eu tenho uma. O melhor de tudo é que você se assustou comigo, quando nos cruzamos, e ficou ressabiado, com cara de culpado e sem jeito. Sei que nunca conseguiria dar um ponto final na nossa história, então naquele dia, eu voltando de um café, você indo sei lá para onde com a morena, dei um ponto através dos teus olhos. Você é tão cheio de si, sempre. Ali foi a primeira vez que te vi sem graça. Quando teus olhos me viram eu li que alguma coisa por ali, alguma coisa entre a gente, seria o nosso tal "para sempre".

Conto e Receita: Renato Kress


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Retribuição

Fora a alma de Lucius, todos diziam. A alma de Lucius estava com fome e tragou pelas narinas da carne de Herculano sua alma às sombras do rio dos mortos. Contemos a história do começo. Lucius contraíra matrimônio com Josephina, era primavera do ano de nosso Senhor de 1673 e ela era só sorrisos embalsamada nos bons desejos de todos para com o jovem casal. Dizia-se mesmo que ele recebera de herança uma pequena arca com tesouros de família.

Infelizmente quis o destino que Lucius nunca se recobrasse ao certo de uma gripe que lhe enfraqueceu os pulmões e debilitou as carnes. Faleceu aos 28 anos, deixando a jovem Josephina sob os cuidados de um primo, Herculano. Um estranho vendaval na cidade havia arrancado do quintal dos fundos a cruz de madeira que ela havia deposto em memória do falecido marido. Diz-se que o vendaval ocorreu na noite primeira em que Herculano mudara-se em definitivo para a casa da prima. O fato é que ninguém mais aproximava-se da jovem viúva sequer para um leve aceno de cabeça. A pequena e dócil Josephina tinha agora como sombra os largos ombros e a espessa sobrancelha de Herculano.

Era algo sofrível toda a situação e fermentava um incômodo geral na população. Desses incômodos que geram histórias que se avolumam de boca em boca, como uma pasta de palavras ruminadas que se adensavam nas mentes ativas do povoado. Fato era que nas mentes do povo era agora Josephina amante do primo que talvez houvesse mesmo envenenado as carnes do pobre Lucius no início de tudo. Era o que por lá corria, mas corria como vento matinal que insufla as folhas para em breve pousar-lhes ao chão. Nada grave, mas contínuo.

Isso assim foi-se até o dia em que Bernardo, pároco da pequena igreja do povoado, ouviu à meia noite estranhos barulhos à esquerda do pátio externo. Imaginou galhos quebrados que se batiam contra a terra e as lápides sob o efeito do vento, mas os barulhos não cessavam, eram contínuos, com cadência. Tudo aquilo a mente supersticiosa do pároco ignorou, até o ponto em que tosses fortes, intensas e um grito cortaram a madrugada. Seus joelhos aceleraram até o som, circundando as paredes altas e encontraram Herculano, caído, com a boca no chão, em espasmos. A cova de Lucius aberta.

Com todo conhecimento médico do pároco não houve boa sorte e, após alguns leves novos espasmos e uma forte gofada de um líquido esponjoso, os olhos de Herculano revivraram-se a caminho do fim. O pároco, talvez pelo choque nos nervos diante de toda a situação, sofreu ainda por alguns dias e teve de ser levado a outra cidade. Haveria novo pároco em breve.

 Tudo isso se sabe mesmo porque foi em cercanias de grande cidade, de onde veio o novo pároco, que se dizia especialista nessas sortes de maldição. Um certo doutor Victor, polonês, passou por lá à chegada do novo pároco e frustrou-se em rodear-se de curiosos num bar da cidade e explicar, sob forte efeito de rum, que as carnes humanas se decompõem em gases sob a pressão do ar dentro dos caixões, gases venenosos para os pulmões dos vivos. Não era suficiente, na mente aldeã, para explicar uma chave que fora encontrada nas mãos de Herculano, a mesma chave que um menino dissera ver no pescoço de Josephina, no dia em que partira daquele lugar maldito.

Conto por: Renato Kress

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Silêncios


- ...e foi desesperador, seu padre! Ele ficava me olhando e sorrindo, sabe? Aquela imagem de Deus enorme, mas gigante mesmo, ficava me olhando com uns olhos azuis que pareciam dois oceanos e tudo aquilo era lindo, lindo demais. Mas era angustiante! Ocupava tudo! Daí ele começou a se afastar, sabe? Eu vi então o nariz e as barbas, e orelhas e todos aqueles cabelos que mais pareciam uma lã e então ele estava mais longe, eu vi o tronco, talvez de braços estendidos para mim, só que se afastando e ele irradiava muita luz, uma luz branca e azulada. Ao redor dele parecia tudo muito escuro, mesmo que ele emanasse muita luz, ainda assim, era como se estivesse num imenso sofá negro, como se fosse o universo, mas sem estrelas. Foi quando eu vi uma luz vermelha fraca, piscando à esquerda, e então, muito assim de repente e acelerando, um monte de pequenas luzes vermelhas e fortes e algumas ficavam amarelas, mas me davam a impressão de que eram pequenos seres vivos. Não sei. Como se fossem figuras negras e vermelhas piscando ao redor dele, e eram muitas, dezenas, centenas, então milhares e, à medida que ele se afastava elas ficavam mais nítidas, ondulando, como se fosse um rio de trevas ali circulando e aquilo tudo foi me dando náuseas. Então eu olhava para os olhos azuis, se afastando, mas ainda assim gigantescos, do tamanho de prédios agora, e eu podia ver as mãos estendidas e eu estava em cima de uma delas e ela estava se afastando. Aqueles seres vermelhos estavam todos eriçados, e giravam rápido e eu comecei a ver asas, asas de morcego! Enquanto os olhos ficavam do tamanho de caminhões, assim, as asas cresciam e alguns deles começavam a voar e tinham chifres e garras e... foi horrível, horrível! Porque os olhos estavam fixos em mim, olhando, sorrindo, mas não dizia nada! Nenhuma palavra! Só se afastavam, fixados em mim. Foi quando pensei em olhar para baixo porque estava em cima das mãos e em breve poderia não estar mais! Não sei o que me deu nem se o que aconteceu aconteceu porque olhei para baixo, mas... seu padre, quando olhei as linhas, as linhas das mãos que antes eram montanhas, agora eram rabiscos de giz branco sobre uma espécie de areia, de areia luminosa, mas quase já não me tocavam mais e eu me desesperei! Quando me desesperei levantei as mãos e tentei me agarrar ali, no que era chão ainda! E o chão... o chão... ficou negro! Completamente preto seu padre! Mas ainda havia chão e eu tinha uma sensação muito, muito ruim. Uma coisa opressiva, sabe? Mas havia muita, muita luz dos meus lados e acima de mim, uma luz branca, leve, suave, foi quando criei coragem para olhar para cima de novo. E eu olhei e era lindo! Centenas, não, milhares de seres luminosos, com asas e roupas claras e sorrisos e abraços e olhares piedosos, todos eles se aproximavam de mim, do alto e dos lados, mas... quando olhei no centro, ali, na minha frente... foi completamente horrível! Primeiro dois olhos de cobra, depois duas sombras, com chifres enormes, cheios de dobras e uma língua bifurcada dentro de uma mandíbula que sorria! Aqueles olhos poderiam me consumir completamente e eles me despiam e me batiam e me sorriam e quando me apercebi de mim vi dedos, do tamanho de prédios se fechando sobre mim! Tentei gritar em vão para os seres luminosos ao redor, mas eles pareciam me ignorar! Foi quando a figura negra e vermelha do centro começou a dançar, se divertindo com meu pânico! Fechei os olhos, mas não adiantou nada! Então olhei novamente para o chão e, quando vi, a figura no centro virava de lado e de costas e então eu vi de novo, aqueles lindos olhos azuis e aquela mão de suave areia luminosa e um sorriso plácido cercado por uma legião de horrendas criaturas que se mutilavam e cresciam e mergulhavam as presas no pescoço umas das outras. No centro ainda aquela barba de lã se afastava e eu podia ver agora o corpo inteiro, ainda que eu estivesse na ponta do dedo médio da mão dele e quando eu tentei falar algo - sinceramente não sei o quê, estava apavorada! - ele virou de lado e, nesse momento pude ver que as costas dele eram aquele monstro, aquela criatura desesperadoramente horripilante e quando ele virou de costas completamente a criatura começou a dançar para mim, e o dançar dela ensurdecia os seres de luz ao redor, esses seres que apareciam quando o monstro gigante aparecia ali atrás, enquanto as criaturas negras sumiam. Ele dançou e dançou por um longo tempo e quando acabou me olhou bem nos olhos, bem perto, apontou para trás de si, fez sinal de silêncio para mim, piscou o olho com as presas às mostra e virou, novamente. Foi quando acordei!

- Bem, minha filha, não cabe a nós interpretar os desígnios ou os grandes mistérios de Deus. Tenho fé que com uma semana de vindas aqui à igreja, 10 padres-nossos e 10 aves-maria todos os dias, principalmente antes de dormir, tudo se resolva.

Inês levantou incerta, ainda tensa por haver relembrado aquele misterioso e desesperador sonho que tivera noite passada. O padre saiu do confessionário com uma estranha pressa e já estava ao lado dela quando de um tropeço Inês chutou o degrau de madeira antiga estalando um ruído seco por todas as naves lateral e central da igreja. Foi quando o padre virou-se para ela, colocou o indicador sobre a boca e, piscando o olho, sorriu.

Conto e receita: Renato Kress

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Os dias que aconteceram na última hora...


Foi um estouro da memória que transbordou arregaçando as idéias e sensações e percepções e tudo aquilo era tão antigo e ao mesmo tempo vivo como uma explosão do dique afetivo em que ele se enclausurara há anos. Mais anos do que ele se permitira admitir. Mas admitir ou não era ridículo porque era um processo íntimo, diferente das artes expressionistas com que ele pincelava a própria vida íntima para os amigos e parentes. Não havia o que admitir ou não. Admitir a quem? A uma parte íntima de si mesmo? Ele sabia e isso bastava.


Foi tropeçando numa escada. No intervalo entre o copo na boca e o queixo no degrau. Naquele intervalo o corpo deu um passo de astronauta e flutuou livre, mas a quantidade excessiva de ar que o susto levou para dentro dos pulmões fraturou as fundações da barragem interna que ele nem mesmo se lembrava de haver erguido. Quebrou o alicerce do dia em que ele desaprendeu a amar. E foi tudo muito claro naquele tropeço: Lívia, olhos de sol, opressão, cheiros e muito choro. Tudo veio como um mergulho num caldeirão fervilhante de memórias.

A primeira memória longa correu seu corpo junto com o sangue no seu queixo. Era o nome dela, "Lívia" e a escada de degraus brancos. Lembrou daquele dia em que ele saiu correndo, desesperado, sem conseguir olhar para trás, olhar para ela... e um gosto de sangue.

Vamos tentar organizar as memórias dele para o leitor. Heitor é um homem sério. Advogado, 31 anos, extrovertido, senhor de si, cercado de amigos, amigas... especiais (digamos assim) e conquistas. Tem seu apartamento, sua moto e seu carro. Estaciona na primeira vaga que encontra quando chega no prédio, mesmo que as vagas sejam marcadas, e sempre resolve o embaraço no dia seguinte com um abraço forte e um sorriso franco e aberto para o legítimo dono da vaga. Compra todos pela simpatia, e é um cara de pau de marca maior.

O fato aqui é que Heitor caiu na escada. Numa escada estreita de uma casa noturna na Lapa, numa despretensiosa quinta feira comemorando o fim das aulas de improviso que havia feito nos últimos seis meses. Estava alcoolizado, a escada era estreita e longa, talvez alguém o tivesse empurrado, mas ele não se lembrava muito bem de haver visto a tal escada. Mas não pôde mesmo esquecer a impressão do tropeço e o ar estourando alguma coisa por dentro. Não era um estouro orgânico, mas afetivo. Ele soube que estourou quando lembrou dos degraus brancos da casa de Lívia, sua primeira namoradinha.

Aos quatorze anos Heitor conheceu Lívia, a única impressão que ele guardou de lá para cá, a mais forte, foi que os olhos azuis dela eram irritantemente brilhantes, como olhar para o sol. Ele tinha que mantê-la sorrindo porque assim ela contraía as pálpebras e ele conseguia olhar para ela. E Lívia amava ele, porque ele a fazia rir e ele amava ela, porque ela era linda. O que desabrochou dentro do coração dele fez com que horas e dias e semanas se dedicassem a fazê-la rir e os estudos se atrasaram, amigos, família e rua, tudo o mais definhou e sumiu e ele já não era ele e não se reconhecia ao se dedicar a ela. Toda essa entrega absoluta e intensa foi tragando tudo o que ele era e sentia em direção ao sol dos olhos dela. Uma gravidade absurda o jogava em translações diárias ao redor dela.

Até que ela pegou conjuntivite. Dois dias em casa. Ele foi ao colégio, ela não estava. O primeiro dia foi como ficar embaixo d´água sem conseguir emergir. Ela era a superfície, o oxigênio, a vida. Tudo o mais parecia lento, aquoso, recheado de uma pressão enervante e muito, extremamente cinza. O segundo dia foi mais sereno. Ele chegou cedo e pôde ouvir os pássaros em algum lugar ao redor do velho prédio ou no pátio do colégio. As cores eram pálidas e ele ouviu chamarem pelo nome dele, algumas vezes. No terceiro dia as árvores tinham um verde intenso e ele estava conversando no centro de uma roda de amigos quando viu a certeza no amor tragada ao encontrar com ela no pátio. Ela tinha o mesmo brilho de sempre - exceto por um certo vermelho ao redor dos olhos que bem poderia ser o fim da conjuntivite como um resquício das lágrimas de ontem - mas ela brilhava como o universo todo e não mais nem menos.

Naquele dia o pai dele o deixou na casa dela e viria pegá-lo em duas horas. Heitor sentou-se na escada com Lívia e viu o mundo. Para ele estava claro que ela o deixava doente, que sugar todas as cores do mundo para dentro dos olhos dela era uma espécie de bruxaria que ela sabia fazer. Talvez aprendesse com a mãe, elas tinham os mesmos olhos. Ele teve medo, medo de olhar de novo para os olhos dela. Nesse medo lhe faltou a piada pronta, o riso descarado e ele encarou o sol dela com os olhos nus. Ela estava atenta e tensa, com as safiras arregaladas para ele. Ele se assustou com aquele sacrilégio azul, levantou, tropeçou e largou o amor ali. Nas escadas brancas.

Conto por: Renato Kress

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