domingo, 26 de fevereiro de 2012

Caçada branca

O aeroporto Nicola Tesla. Crianças correndo entre rugas de senhores e senhoras dobrados em corcundas e enredados entre panos negros e carmim trançado. As atendentes, altas com batons escuros, exibem sorrisos mecânicos e todos na sala de embarque observam, de soslaio, a cor do passaporte uns dos outros. Éramos todos obrigados a tê-los em mãos para embarcar.

A essa altura a fila de idosos e mães com crianças de colo embarcando na frente fazia minha testa umedecer e trazer aquele maldito calafrio que me percorria a espinha a uma semana e fazia meus dedos ficarem leves, prenunciando a ação. Tudo me dizia que já sabiam de mim.

Entrei no avião procurando especificamente pela minha poltrona. A todo custo evitando trocar olhares. Sentei na 17F, ao lado de uma bela menina de cabelos nos ombros. Pela janela as sombras da noite de Belgrado só permitiam ver as luzes da pista de decolagem. Implorava, intimamente, pela decolagem, e mais intensamente, por não ver sombras ou vultos na pista. Aquele avião não saía. Foi quando a exaustão do corpo me trouxe, no sono, lembranças fantásticas das últimas cinco noites. Tudo num longo flash, a conversa com Ferdinand Calmet numa noite de chuva no Charles de Gaule, as instalações da Ain Soph abaixo das ruínas de Löwenburg, as escoriações e as dores por todo o corpo, instrutores contraditórios, alimentação e sono regrados e essa viagem às pressas para a Cidade Branca atrás de um instrutor que desapareceu num vilarejo durante uma missão de rotina.

Havíamos perdido completamente o contato com a sede russa e isso não era sequer comentado. Teria que tratar-se de um assunto interno, problema de comunicações, algo que até então eles acreditavam que resolveriam em algumas horas. Um calafrio parecia percorrer em ondas as instalações do Ain Soph a cada hora que confirmávamos ainda não ter restabelecido comunicação. Agora sei que não resolverão. Precisamos de acesso aos Urais, sem eles não há suprimento, e sem ele, estamos perdidos. Recostando a cabeça na poltrona deixei a mente vagar pelas histórias que tem visitado meus sonhos desde a sete anos atrás, quando a notícia do falecimento de um primo de segundo grau que vivia viajando chegou junto com um envelope vinho, lacrado com cera vermelha. Em tempos de e-mail foi no mínimo, inusitado.

Mergulhando na poltrona, deixei minha alma se perder nas encruzilhadas sombrias das memórias. No tal vilarejo em que Lotar - o instrutor desaparecido - tivera feito seu último contato um garoto, ao reconhecer o broche na minha lapela, levou-me a uma mesa de canto onde disse que eu precisava ajudá-lo "porque é isso o que vocês fazem, não é?". Sei que tudo levava à sua namorada, Sladja, que estava a cada manhã mais pálida e fraca, para terror dos familiares que já haviam abandonado a crença nos oupires. Fiz o procedimento padrão: aluguei um bom cavalo, e, às cinco da manhã, estava às portas do cemitério do vilarejo. A hora era importante. Eu precisava do início do dia para operar sem perigo para mim ou para os demais, no intervalo entre a chegada da criatura e a aurora do dia. Passei pelos sepulcros dos familiares da menina até que o cavalo empinou, relinchou e se recusou a andar. Era do que eu precisava. Isso e as pegadas frescas me levaram a uma pequena tumba coletiva onde haviam várias gavetas em que se depositavam os corpos. Coisas modernas. Abri a gaveta e lá estava ele, um rapaz de seus dezoito anos, cabelos loiros e a face de um branco avermelhado como se houvesse sido maquiado ou esbofeteado. Um vermelho vivo. Minha mão escorreu pelo pescoço dele, levando a faca da lua e compensando o atraso do destino. Sladja melhorou em dois dias. Aos céticos da família expliquei que o pescoço é como o filé mignon, mas, enquanto pedia que ela mostrasse os dois pequenos furos entre seus seios, expliquei que existem criaturas com apetites mais... exóticos.

Trabalho padrão. Me incomodava que tenha se passado uma semana que perdemos notícia com nossa sede nos Urais. Um problema padrão de comunicação duraria algumas horas ou no máximo um dia para ser resolvido. Então ontem as comunicações com a Alemanha falharam também. Pego o jornal e não contenho o espasmo gélido nas mãos ao descobrir que grande parte das florestas Komi foram invadidas por laboratórios das indústrias farmacêuticas européias, principalmente alemãs. Estão todos loucos! Um ataque a Komi é uma declaração de guerra! Lembro-me da conversa, a sete anos, sobre a expedição geodésica espanhola e sua incrível descoberta, em 1735, no Equador. Com toda certeza sou procurado agora. Ainda devem haver outros instrutores e outros caçadores. Espero que pensem o mesmo que eu. Saio antes de atingir Nurembergue, desço em Viena e procuro caminho pela Espanha. O mais seguro agora é ir de navio. Se pretendo combater essa guerra é preciso refazer o caminho de Ulloa... ou ir à lua.

Conto e receita: Renato Kress

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Fundações

Quando viu - na gota do orvalho sobre a rosa matinal - o reflexo de um castelo atrás de sua nuca - ele não ficou desapontado por saber que não havia castelo atrás - ele sorriu porque soube onde ficariam as fundações. Era um homem comum, quatro membros, uma cabeça e ombros que suportavam não mais que o peso de suas estranhas certezas. Era um homem comum. O estranho nele, eram as certezas. 

A maior parte das pessoas ao redor, ele pensava, tinham muitas dúvidas sobre o próprio futuro, sobre a vida, sobre as formas de amar e ser amado, sobre a destinação dos impostos e as razões certas das guerras. Ele compartilhava dessas dúvidas também, é claro, era um homem comum. O que lhe acontecia de singular era o brotamento estranho de redes neurais no seu cérebro, um tropismo qualquer que lhe subia, nadando na glia, em direção ao que ele chamava de "vontade". Dessa tal "vontade" é que surgiam, numa espécie de insondável via láctea cerebral, as suas estranhas certezas.

Ele não sabia exatamente como, mas também não questionava, o fato é que não sabia como mas via o mundo inteiro como um enorme ajuntamento caótico de pirâmides e lápides. Ele olhava para seu prédio e claramente via aquelas paredes como obras das mãos de homens que possivelmente estariam mortos àquela hora, seu carro era de um ano atrás, mas a ideia de um motor a combustão utilizando combustível fóssil com bancos e rodas e portas era uma criação de um homem, ou de um grupo de homens, que com certeza já estavam mortos. O sistema democrático, as oligarquias, os casamentos, o pão francês, a carta de amor e o cadarço para amarrar os sapatos, tudo aquilo para ele cheirava a morte, porque eram trabalhos e criações de quem agora alimentava os vermes sob a terra.

É claro que a primeira vez que esse homem comum teve essa certeza um sentimento de vazio e prostração lhe invadiu. Ele ficou desalentado porque nada era "natural", o mundo inteiro, desde o sabonete até comer sentado eram invenções e ele não lembrava de ter tomado parte em nenhuma delas. Ele só aceitava e convivia. Conversando com amigos ficou sabendo do tal niilismo - dessa coisa de não acreditar em nada - e isso deixou ele prostrado no sofá por uns dias, pensando que não costurou nenhuma das suas roupas, que não saberia montar uma bicicleta caso fosse preciso, e que aquilo tudo ao redor lhe lembrava um grande cemitério de idéias.

Foi quando ele teve a primeira. Sinceramente ele não lembrava mais, hoje em dia, qual foi a primeira, mas na verdade não importava, porque ela era de uma natureza virótica, a primeira gerou a segunda, quase que por partenogênese a terceira levou à sétima e então ele não parou mais. Eram muitas, eram longas, grandes, pequenas, inusitadas, leves, densas, intermitentes, contínuas, eternas, eram várias e várias formas de ver aquilo tudo de um novo jeito, de uma nova forma. Como milhares de óculos em forma de borboleta a lhe pousarem sobre o nariz e mudar a imagem do mundo. E os cemitérios foram virando parques de diversões onde ele se perguntava sempre: "Por que não?", "E se fosse diferente?", "E se não fosse obrigatório pensar assim, como seria?".

Isso não mudou as dúvidas antigas. Ele continuava com elas. Ele não sabia ainda sobre o futuro, sobre a vida e sobre o amor, ele não tinha a menor ideia da destinação dos impostos, mas para alguns assuntos ele poderia criar algumas respostas, para outros ele poderia disseminar melhores perguntas. Por isso mesmo, quando ele viu na gota do orvalho sobre a rosa, o reflexo de um castelo que não estava na sua nuca ele não ficou desapontado por saber que não havia castelo atrás, ele sorriu, porque soube onde ficariam as fundações.

Renato Kress

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

#Meaperta (Microconto ao estilo twitter)


Andava tão carente que amarrou um plástico bolha na cintura e saiu com a camisa: "Me abraça?".

Microconto e receita por: Renato Kress

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Homens de família

Alô? Fala Beto, meu querido! Então, é o Cássio! Tempo né? Como assim que Cássio? Cassio do Jornal... é, da redação! Escuta: e o nosso vereador, hein? Poxa cara, que chato! Pois é, coisa da oposição, eu sei... a gente sabe! Mas tô ligando justamente pra te dar uma mão nessa! Sei que num momento desses o nosso vereador deve estar aí precisando dos amigos e sei que você é o cara que tá por perto... então: é que a matéria vai sair amanhã rapaz! Pois é, mídia digital a coisa toda flui que a gente não vê. Parece tsunami lá na editoria. É que eles me mostraram uma foto do nosso vereador fichado, rapaz! Pois é, pegaram pesado! Imagina a foto dele lá frente e lado, aquela bem feia mesmo! Incriminando um pai de família, agora veja você rapaz! Mas a gente pode dar um jeito nisso, porque, você sabe, amigo é pra essas coisas. Então, tem uma foto dele saindo da delegacia que fica mais elegante, ainda mais que saindo é melhor que foto entrando, né não? Então, pois é. Fiquei sabendo aí que o sogro dele é dono daquela faculdade... é é, essa mesmo. Então, olha que coincidência, meu amigo! Minhas duas sobrinhas estudam lá, cara! Pois é... mundo pequeno, não é não? Tô te comentando porque a foto do nosso vereador fichado saiu feia mesmo e as meninas se esforçam, mas não estão muito bem, entende? Pois é... espero, espero... Opa, maravilha! É nessas horas que a gente vê quem é que é amigo, rapaz. Outra coisa que eu notei aqui, na diagramação, é que colocaram bem na página da esquerda e na parte de cima. Não, não tem nada não, mas é que é por lá que o pessoal começa a ler quando abre o jornal, sabe? Já na parte interna e do lado direito quase ninguém vê. Sabia que até anúncio desse lado é mais barato? Pois então! Te digo! Então, me veio aqui que o primo do Tonico tem aquela concessionária na entrada do bairro. É, o Tonico, o afilhado do nosso vereador. Coisa de um mês e o meu do meio tá fazendo dezoito, Beto! Tava pensando num palio para o rapaz, mas não queria um simples não, porque ele é menino esforçado, sabe? Passou na federal de direito, menino de bem, meu orgulho! Tava pensando num daqueles "adventures"... claro, espero sim... ô Beto! Acabei de me lembrar que tem um espaço pra eu jogar de repente essa matéria absurda contra o nosso vereador na quarta página. A gente tira do destaque, mas me fala aí o que você vai conseguir do carro que eu vou dando uma olhada nisso pra você, meu irmão!... Opa, maravilha, maravilha! Weekend serve também, afinal é primeiro carro, mas é completo né? Beleza! Então Beto, tava aqui lendo a matéria como vai sair amanhã e se eu mudar muita coisa pode dar problema aqui pra mim e não queremos isso, certo? Pois então! Tô pensando aqui que eu posso incluir ao invés de tirar. É, é. Posso incluir um "talvez" aqui e ali, um "provável" antes de "evidências", um "suspeito" no lugar de "acusado", que que você acha, meu rei? Então, tudo isso a gente faz com carinho pelo nosso vereador, claro! O que eu tava aqui lembrando foi que hoje cedo a Míriam - lembra da Míriam, minha esposa? Então! É, vai bem sim - me encheu que eu tinha dito que íamos viajar no fim do ano - acredita que eu nem lembrava disso mais? Pois então! - e agora fiquei pensando nessas promoções aí e me lembrei que as filhas do nosso querido vereador têm uma agência de viagem, não é não? Ah, é pequena? Mas isso é bobagem rapaz! Nunca fomos a Campos de Jordão, por exemplo! É possível, não é? Poxa, maravilha! Dá um toque nelas aí que eu vou fazer sempre o possível para dar aquele apoio ao nosso vereador. A gente sabe que nessas horas precisamos é dos amigos! Sempre! Então é isso: me passa até às onze os e-mails com a resolução da questão da faculdade das minhas sobrinhas - mesmo sobrenome que o meu, é, Figueira, uma faz letras a outra comunicação, as duas no terceiro período, Tatiana e Bruna -, a data que eu passo pra pegar o carro do moleque e as passagens pagas lá, que eu mexo aqui na edição aqui pra dar aquela força pro nosso vereador! Que isso, rapaz! Tamos aí pra isso mesmo! Precisando é só falar! É um homem de família ajudando o outro, nada mais que a nossa obrigação! É de coração, irmão, é de coração! Manda um abraço pro nosso vereador e pode falar que tamo junto nessas horas, não é oposiçãozinha que vai derrubar o nosso homem, não! Abração!

Conto e Receita: Renato Kress

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ocípite



O frio cortante passava por entre as frestas dos tecidos, arestas das construções e sussurrava imprecações aos ouvidos das mulheres casadas. Era um toque de recolher mudo que dançava uma coreografia tímida no consenso programado entre as nove horas, o toque dos sinos e o rangir das molas das camas dos habitantes daquele vilarejo.

Naquela noite os cachos castanhos sobre a cabeça dela tocaram o travesseiro felizes. Entre seus dedos, à luz da lamparina a óleo que tremeluzia um fraco brilho no chão, estava a razão do sorriso incomum sobre as maçãs do belo rosto camponês: uma moeda de prata grossa, incompatível com os dedos frágeis de uma menina de quatorze anos. Aquela moeda era motivo para que toda a felicidade do mundo valseasse a seus olhos verdes, para que ela lutasse bravamente, com o braço esquerdo estendido para fora da cama, contra o sono que lhe insistia em não carregar consigo o brilho amarelado da lamparina refletido no objeto entre seus dedos. Ele havia dito que voltaria para pegar aquela moeda, aquele brilhante mundo circular entre frágeis dedos.

No trepidante das pálpebras entre o sono e a vigília, o peso do primeiro estirou aquelas falanges delicadas, sugando a força de seu pulso que, surpreso, travou-se de imediato enquanto os olhos brilhavam de susto! Era o som metálico sobre as tábuas de madeira, a moeda que batia e rolava pela fresta da porta! Ela levantou de um susto numa tensão que prenunciava o medo.

Caiu sobre as tábuas escorrendo os finos dedos num tatear cego, vítima de uma lâmpada que parecia brincar com seu desencanto crescente. Sem a moeda talvez ele não voltasse! Foi quando seu pulso, em pânico, esbarrou no frio metálico e reiniciou o som da moeda que se perdia em direção às frestas frias da porta. E vazou.

Sua mão esquerda correu para trás em busca da lamparina bruxuleante enquanto a palma direita travou-se de frio e tensão sobre a maçaneta à sua frente. A falta da esperança, que crescia na ausência da moeda, era maior que o receio das histórias sobre a Senhora da Noite. A moeda estaria do outro lado, caída, ela pegaria e voltaria a dormir, tendo o cuidado de esconder bem dentro da fronha aquele talismã dele.

Abriu a porta de um susto e nada mais pôde ouvir que cascos longínquos de cavalos e o sussurrar irritante do vento sobre as árvores secas de uma noite sem lua. Agachou-se na soleira com a lamparina em frente ao rosto, vasculhou o que pôde da varanda, das duas cadeiras, das reentrâncias daquele chão de veios. Nada.

Teve a leve impressão de um brilho no mato, a poucos metros à frente da casa, entre a porta e os álamos brancos. Os cavalos, por algum motivo, estavam parecendo mais próximos, mas haveria de ser o vento... e só o vento. O vento trazendo também o som dos arfados dos cães do vizinho e os cavalos, mais próximos. Não que ela lembrasse de que os vizinhos tivessem cães, mas talvez um cão perdido, ou só o vento. Os apelos do vento foram ignorados, mesmo quando apagou a frágil lamparina. Mirou o ponto onde o brilho cresceu na relva e correu às trevas. Tropeçou. Talvez um galho, talvez uma pedra ou um buraco, tropeçou.

Seu coração lha lembrou, de sobressalto, o galope desenfreado dos cavalos ensurdecendo sua alma quando as sombras da noite se abriam numa carruagem de prata atada a corcéis de um negro azulado que, seguindo o crescer veloz do vento e trazendo um frio de outro plano, circundaram ela antes de parar, à sua frente. Se ouvia o uivo de cachorros e lobos e alguma gravitação natural das pernas a puxava, força qualquer cada vez mais frágil, para dentro de casa. A forma lunar da carruagem lhe chamou a atenção - mais que os olhos de bruma azul dos corcéis - eram ferragens trabalhadas como ela jamais havia visto nos seus mais insanos devaneios, e brilhavam como se tivessem pequenas linhas de pura luz correndo por seus ângulos circulares.

Ela estava entre o desespero, o pânico e o fascínio quando percebeu a falta do som dos cães, exato momento em que a porta lateral começou a escorrer descendo a bruma azul ao nível do solo. Dois novos olhos. Duas lanternas de um azul sobrenatural preenchiam o ar com o perfume de mil damas da noite, quando seus negros cabelos delineavam o contorno alvo de seu colo e a figura em suas unhas azul marinho sorria maliciosamente para a menina no chão. Para a menina, ela era a mais linda das lindas, o segredo da noite. A cada passo para fora da carruagem, por detrás de seus calcanhares altos, surgiam dois cães à direita ou dois lobos à esquerda, presas à mostra, olhar fixo nos seios da menina.

Pares de presas de um dos lobos se adiantaram aos joelhos da menina, numa velocidade tal que chegaram e voltaram movendo mais o vento que os reflexos possíveis. Balançando o rabo ele voltou para lamber a mão daquela mulher incrível, que abriu um sorriso - e bem poderia ter presas de pérola - e estendeu à menina a mão esquerda com a moeda de prata, e com a direita lhe apontou o interior da carruagem.

Mil espectros, súcubos e íncubos seguiam, como ondas de um cinza azulado, por trás da carruagem. Cada um deles, em sua língua, ajoelhados, com suas mandíbulas arqueadas e formas tremeluzentes, pareciam suplicar que a menina fosse embora, que esquecesse moeda e carro, que fosse, que fosse...

Foi quando à porta de sua casa, o grito de sua mãe despertou seu avô, enquanto via seu vestido branco mergulhar na noite, no exato ponto onde, na manhã seguinte, encontraram uma estranha moeda, grossa, de prata.

Conto e receita: Renato Kress



Ocípite é o nome da segunda Harpia - mulher alada ou ave com cabeça feminina que raptavam as crianças e as almas - seu nome significava "vôo rápido". Viviam nas "ilhas do fim do mundo" e perseguiam os mortais, roubando-lhes alimento ou sujando tudo com seus excrementos. Suas outras duas irmãs se chamavam Aelo e Celeno e significavam "Tempestade" e "Obscuridade".

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Perene

Passeavam ele e ela lentamente numa quarta feira ensolarada, procurando as sombras, com os braços entrelaçados e falando num tom que só o outro poderia ouvir.  Timbre era leve, pausado. No canteiro à frente da esquina Adamastor, 87 anos, diz a Constância, 84: Vou matar Eugênio!

A senhora estanca a passada já lenta e dispara, num olhar amedrontado:
- Você está louco?
- Ele morre hoje. - diz o senhor, com os olhos fixos nas pedras portuguesas à sua frente enquanto a mão de Constância desliza para longe de seu braço para se entrelaçar na outra mão - agora dedos cruzados - em sinal de súplica.
- Pára com isso! Sabe que não vai, que não pode, não vamos...
E o senhor esguio, frágil, de pescoço longo e ombros recurvos permanece estanque, braços esticados e punhos cerrados. - Hoje ele morre!

É quando ela abre um sorriso - dos muitos que ele não vê - e diz: É assim. Vá! Mate! Você sempre desiste dos teus personagens, se não no início talvez no meio. Têm fim mas não envelhecem, a maior parte, principalmente os mais interessantes como Eugênio, morrem prematuros na ideia da ideia, enquanto ficamos só nos dois. Já percebeu o quanto a casa está despovoada?

O longo pescoço elevou a cabeça até os olhos de Constância.

- É. Despovoada! Nunca percebeu? Quando casamos a casa tinha eu e você e mais de uma centena de personagens, era o menino Tinoco, o capataz Alberico, o padeiro Vico, a dançarina Rubra, a pianista Laura, aqueles ladrões, os irmãos Katz, toda a família Figueira... isso sem contar os animais, o gato Klimt, a garça Graça... amei cada uma das tuas criações. Casei com teu corpo, mas levei principalmente esse parque maravilhoso de diversões, esse inexplicável circo de criações fantásticas na tua mente. São esses os nossos filhos que ficam, enquanto Lidia, Manoel e Clara se vão. Não gosto quando você mata nenhum deles. Desapareça com ele, mas não mate. Quero dar um destino aleatório e romântico a Eugênio no café da manhã de amanhã. Não desista dele!

- Ele é um covarde! Um néscio!

- Não desista dele! - disse a mão esquerda dela encontrando o punho cerrado dele...

- Você me acha um covarde? Eu desisto muito fácil? - disse a mão direita dele a caminho da dela...

E de si para si, entre as orelhas de Constância, ficaram sozinhas as palavras: "se eu tivesse desistido uma única vez..." e o sorriso e o beijo e o caminho de casa.

Texto e receita: Renato Kress

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O velho conta sobre nova Atlântida

naquele dia de outono nublado o velho Kleper sentou sobre as pedras da chapada e apontou para o sul. Todos sabiam que era a hora em que ele contava a história da Nova Atlântida, da Atlântida que ele chamava de "a invertida", onde a civilização atrasada era a que ficava embaixo.

E foi ali - ele dizia com uma certa voz que ecoava silente no abismo à sua frente - e foi ali que tudo se sucedeu. E era muita questão junta. Era do povo indio que não queria suas alma alagada com usina, era do povo do sertão que cansava das decisão de mexer e não mexer nos rio, era do povo que vive do verde que se ocupava dos código das floresta, era vida da floresta que ressentia do desapreço dos homem. Era dos remédio que nunca chegava, da educação que minguava, da alma do povo que secava porque ali - e apontou de novo para o sul de onde estávamos todos - ali ficava uma esponja bruta, dessas ávida ressequida que num termina nunca o inspirar do que é dos outro. Ali aquela esponja era espírito de nunca cansar, que sugava tudo ao redor até secar a planta dos pé dos que ali morava. Toda boca secava e sangrava e os pé era que parecia tijolo seco no sol e tudo se dizia que era do tempo e era do vento e era do seco daquele espaço, mas na verdade mesmo era a alma daquela esponja tragano toda vida do redor. Era ganância do povo do centro, do povo de lá, secando tudo, rachando as rochas, os pés, as almas. Nesse mesmo dia de hoje, a dez anos atrás, foi quando se resolveram que iam mesmo desviar as águas. E quem resolveu não foram os do centro, que sugavam e usavam e descartam as águas e flores e alma dos da periferia. Quem resolveu foi a periferia, os pequenos. E foi trabalho silencioso, de mêis, trabalho de surdina, de segredo sagrado. E ficaro cavano por mêis, povo índio, povo velho, povo criança, povo que ensina, povo que cuida, povo que constrói casa e viaduto e creche, todos os povo junto, e coisa de mêis. O rio se desviou e o povo do centro, os que suga a vida dos outros povo, só viram quando era tarde. Foi bem numa quarta, eles votava aumento dos salário. Casa cheia, cês imagina. Veio a onda primeira e levo os carro, as casa os prédio, as mulher deles. Levou tudo. A onda segunda, menor, só passou pra lavar as esperança dos que num morrero na primera. E era um monte de vampiro boiano, e era ali um monte de povo livre. Hoje ali fica a Atlântida Invertida, pode ir lá mergulhar pra vê os prédio. Engenharia mágica das arquitetura do antigamundo. Mas num se ingane com as beleza dos prédio, a alma do povo que lá vivia corrompeu, as veia já nem tinha mais sangue, era tudo areia e centavos. Se duvida vai lá, mergulha, procura, mas a água nem turva é, que de sangue mesmo eles não tinha nenhum.

Receita e conto: Renato Kress

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