quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ocípite



O frio cortante passava por entre as frestas dos tecidos, arestas das construções e sussurrava imprecações aos ouvidos das mulheres casadas. Era um toque de recolher mudo que dançava uma coreografia tímida no consenso programado entre as nove horas, o toque dos sinos e o rangir das molas das camas dos habitantes daquele vilarejo.

Naquela noite os cachos castanhos sobre a cabeça dela tocaram o travesseiro felizes. Entre seus dedos, à luz da lamparina a óleo que tremeluzia um fraco brilho no chão, estava a razão do sorriso incomum sobre as maçãs do belo rosto camponês: uma moeda de prata grossa, incompatível com os dedos frágeis de uma menina de quatorze anos. Aquela moeda era motivo para que toda a felicidade do mundo valseasse a seus olhos verdes, para que ela lutasse bravamente, com o braço esquerdo estendido para fora da cama, contra o sono que lhe insistia em não carregar consigo o brilho amarelado da lamparina refletido no objeto entre seus dedos. Ele havia dito que voltaria para pegar aquela moeda, aquele brilhante mundo circular entre frágeis dedos.

No trepidante das pálpebras entre o sono e a vigília, o peso do primeiro estirou aquelas falanges delicadas, sugando a força de seu pulso que, surpreso, travou-se de imediato enquanto os olhos brilhavam de susto! Era o som metálico sobre as tábuas de madeira, a moeda que batia e rolava pela fresta da porta! Ela levantou de um susto numa tensão que prenunciava o medo.

Caiu sobre as tábuas escorrendo os finos dedos num tatear cego, vítima de uma lâmpada que parecia brincar com seu desencanto crescente. Sem a moeda talvez ele não voltasse! Foi quando seu pulso, em pânico, esbarrou no frio metálico e reiniciou o som da moeda que se perdia em direção às frestas frias da porta. E vazou.

Sua mão esquerda correu para trás em busca da lamparina bruxuleante enquanto a palma direita travou-se de frio e tensão sobre a maçaneta à sua frente. A falta da esperança, que crescia na ausência da moeda, era maior que o receio das histórias sobre a Senhora da Noite. A moeda estaria do outro lado, caída, ela pegaria e voltaria a dormir, tendo o cuidado de esconder bem dentro da fronha aquele talismã dele.

Abriu a porta de um susto e nada mais pôde ouvir que cascos longínquos de cavalos e o sussurrar irritante do vento sobre as árvores secas de uma noite sem lua. Agachou-se na soleira com a lamparina em frente ao rosto, vasculhou o que pôde da varanda, das duas cadeiras, das reentrâncias daquele chão de veios. Nada.

Teve a leve impressão de um brilho no mato, a poucos metros à frente da casa, entre a porta e os álamos brancos. Os cavalos, por algum motivo, estavam parecendo mais próximos, mas haveria de ser o vento... e só o vento. O vento trazendo também o som dos arfados dos cães do vizinho e os cavalos, mais próximos. Não que ela lembrasse de que os vizinhos tivessem cães, mas talvez um cão perdido, ou só o vento. Os apelos do vento foram ignorados, mesmo quando apagou a frágil lamparina. Mirou o ponto onde o brilho cresceu na relva e correu às trevas. Tropeçou. Talvez um galho, talvez uma pedra ou um buraco, tropeçou.

Seu coração lha lembrou, de sobressalto, o galope desenfreado dos cavalos ensurdecendo sua alma quando as sombras da noite se abriam numa carruagem de prata atada a corcéis de um negro azulado que, seguindo o crescer veloz do vento e trazendo um frio de outro plano, circundaram ela antes de parar, à sua frente. Se ouvia o uivo de cachorros e lobos e alguma gravitação natural das pernas a puxava, força qualquer cada vez mais frágil, para dentro de casa. A forma lunar da carruagem lhe chamou a atenção - mais que os olhos de bruma azul dos corcéis - eram ferragens trabalhadas como ela jamais havia visto nos seus mais insanos devaneios, e brilhavam como se tivessem pequenas linhas de pura luz correndo por seus ângulos circulares.

Ela estava entre o desespero, o pânico e o fascínio quando percebeu a falta do som dos cães, exato momento em que a porta lateral começou a escorrer descendo a bruma azul ao nível do solo. Dois novos olhos. Duas lanternas de um azul sobrenatural preenchiam o ar com o perfume de mil damas da noite, quando seus negros cabelos delineavam o contorno alvo de seu colo e a figura em suas unhas azul marinho sorria maliciosamente para a menina no chão. Para a menina, ela era a mais linda das lindas, o segredo da noite. A cada passo para fora da carruagem, por detrás de seus calcanhares altos, surgiam dois cães à direita ou dois lobos à esquerda, presas à mostra, olhar fixo nos seios da menina.

Pares de presas de um dos lobos se adiantaram aos joelhos da menina, numa velocidade tal que chegaram e voltaram movendo mais o vento que os reflexos possíveis. Balançando o rabo ele voltou para lamber a mão daquela mulher incrível, que abriu um sorriso - e bem poderia ter presas de pérola - e estendeu à menina a mão esquerda com a moeda de prata, e com a direita lhe apontou o interior da carruagem.

Mil espectros, súcubos e íncubos seguiam, como ondas de um cinza azulado, por trás da carruagem. Cada um deles, em sua língua, ajoelhados, com suas mandíbulas arqueadas e formas tremeluzentes, pareciam suplicar que a menina fosse embora, que esquecesse moeda e carro, que fosse, que fosse...

Foi quando à porta de sua casa, o grito de sua mãe despertou seu avô, enquanto via seu vestido branco mergulhar na noite, no exato ponto onde, na manhã seguinte, encontraram uma estranha moeda, grossa, de prata.

Conto e receita: Renato Kress



Ocípite é o nome da segunda Harpia - mulher alada ou ave com cabeça feminina que raptavam as crianças e as almas - seu nome significava "vôo rápido". Viviam nas "ilhas do fim do mundo" e perseguiam os mortais, roubando-lhes alimento ou sujando tudo com seus excrementos. Suas outras duas irmãs se chamavam Aelo e Celeno e significavam "Tempestade" e "Obscuridade".

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Perene

Passeavam ele e ela lentamente numa quarta feira ensolarada, procurando as sombras, com os braços entrelaçados e falando num tom que só o outro poderia ouvir.  Timbre era leve, pausado. No canteiro à frente da esquina Adamastor, 87 anos, diz a Constância, 84: Vou matar Eugênio!

A senhora estanca a passada já lenta e dispara, num olhar amedrontado:
- Você está louco?
- Ele morre hoje. - diz o senhor, com os olhos fixos nas pedras portuguesas à sua frente enquanto a mão de Constância desliza para longe de seu braço para se entrelaçar na outra mão - agora dedos cruzados - em sinal de súplica.
- Pára com isso! Sabe que não vai, que não pode, não vamos...
E o senhor esguio, frágil, de pescoço longo e ombros recurvos permanece estanque, braços esticados e punhos cerrados. - Hoje ele morre!

É quando ela abre um sorriso - dos muitos que ele não vê - e diz: É assim. Vá! Mate! Você sempre desiste dos teus personagens, se não no início talvez no meio. Têm fim mas não envelhecem, a maior parte, principalmente os mais interessantes como Eugênio, morrem prematuros na ideia da ideia, enquanto ficamos só nos dois. Já percebeu o quanto a casa está despovoada?

O longo pescoço elevou a cabeça até os olhos de Constância.

- É. Despovoada! Nunca percebeu? Quando casamos a casa tinha eu e você e mais de uma centena de personagens, era o menino Tinoco, o capataz Alberico, o padeiro Vico, a dançarina Rubra, a pianista Laura, aqueles ladrões, os irmãos Katz, toda a família Figueira... isso sem contar os animais, o gato Klimt, a garça Graça... amei cada uma das tuas criações. Casei com teu corpo, mas levei principalmente esse parque maravilhoso de diversões, esse inexplicável circo de criações fantásticas na tua mente. São esses os nossos filhos que ficam, enquanto Lidia, Manoel e Clara se vão. Não gosto quando você mata nenhum deles. Desapareça com ele, mas não mate. Quero dar um destino aleatório e romântico a Eugênio no café da manhã de amanhã. Não desista dele!

- Ele é um covarde! Um néscio!

- Não desista dele! - disse a mão esquerda dela encontrando o punho cerrado dele...

- Você me acha um covarde? Eu desisto muito fácil? - disse a mão direita dele a caminho da dela...

E de si para si, entre as orelhas de Constância, ficaram sozinhas as palavras: "se eu tivesse desistido uma única vez..." e o sorriso e o beijo e o caminho de casa.

Texto e receita: Renato Kress

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O velho conta sobre nova Atlântida

naquele dia de outono nublado o velho Kleper sentou sobre as pedras da chapada e apontou para o sul. Todos sabiam que era a hora em que ele contava a história da Nova Atlântida, da Atlântida que ele chamava de "a invertida", onde a civilização atrasada era a que ficava embaixo.

E foi ali - ele dizia com uma certa voz que ecoava silente no abismo à sua frente - e foi ali que tudo se sucedeu. E era muita questão junta. Era do povo indio que não queria suas alma alagada com usina, era do povo do sertão que cansava das decisão de mexer e não mexer nos rio, era do povo que vive do verde que se ocupava dos código das floresta, era vida da floresta que ressentia do desapreço dos homem. Era dos remédio que nunca chegava, da educação que minguava, da alma do povo que secava porque ali - e apontou de novo para o sul de onde estávamos todos - ali ficava uma esponja bruta, dessas ávida ressequida que num termina nunca o inspirar do que é dos outro. Ali aquela esponja era espírito de nunca cansar, que sugava tudo ao redor até secar a planta dos pé dos que ali morava. Toda boca secava e sangrava e os pé era que parecia tijolo seco no sol e tudo se dizia que era do tempo e era do vento e era do seco daquele espaço, mas na verdade mesmo era a alma daquela esponja tragano toda vida do redor. Era ganância do povo do centro, do povo de lá, secando tudo, rachando as rochas, os pés, as almas. Nesse mesmo dia de hoje, a dez anos atrás, foi quando se resolveram que iam mesmo desviar as águas. E quem resolveu não foram os do centro, que sugavam e usavam e descartam as águas e flores e alma dos da periferia. Quem resolveu foi a periferia, os pequenos. E foi trabalho silencioso, de mêis, trabalho de surdina, de segredo sagrado. E ficaro cavano por mêis, povo índio, povo velho, povo criança, povo que ensina, povo que cuida, povo que constrói casa e viaduto e creche, todos os povo junto, e coisa de mêis. O rio se desviou e o povo do centro, os que suga a vida dos outros povo, só viram quando era tarde. Foi bem numa quarta, eles votava aumento dos salário. Casa cheia, cês imagina. Veio a onda primeira e levo os carro, as casa os prédio, as mulher deles. Levou tudo. A onda segunda, menor, só passou pra lavar as esperança dos que num morrero na primera. E era um monte de vampiro boiano, e era ali um monte de povo livre. Hoje ali fica a Atlântida Invertida, pode ir lá mergulhar pra vê os prédio. Engenharia mágica das arquitetura do antigamundo. Mas num se ingane com as beleza dos prédio, a alma do povo que lá vivia corrompeu, as veia já nem tinha mais sangue, era tudo areia e centavos. Se duvida vai lá, mergulha, procura, mas a água nem turva é, que de sangue mesmo eles não tinha nenhum.

Receita e conto: Renato Kress

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Pedras Brancas

Naquela manhã seus pés visitaram o mar. E mesmo através dos raios do sol ela tinha certeza da presença das estrelas, como se percebe o olhar de um admirador ou se sabe a cor das flores em novembro. Sentou na beira da praia, mãos entrelaçadas sobre os joelhos e um olhar distante. Abriu a carta.

"Menina dourada,
tempo que não nos vemos. Talvez anos? Tá difícil contar os dias aqui porque já não me visitam e quando tinha visita eu sabia que era domingo. Eu achava que estava contando, mas eu devo ter errado porque se tô certo esqueceram meu aniversário esse ano, e talvez no outro.

Nesses dias, faz umas semanas, com certeza que mais de vinte luas, foram embora os que chegaram depois da chuva. Pedi que dona Flora deixasse essa carta na caixa da casa do uivo dourado, que era para você. Acho que ela vai entregar. Nesses dias depois da chuva vieram vários de fora e veio uma menina que me lembrou você. Ela não ficava em cima do muro nem tinha um cachorro preto, mas era curiosa e tinha o cabelo dourado e me deu uma flor. Lembro a flor que você me deu quando te vi em cima do muro, atrás das folhas da jabuticabera. Era para não contar que você estava ali. Foi nosso primeiro segredo. Faz tempo que você não vai à casa do uivo dourado, era bom conversar.

Outro dia dr. Firmino me explicou o uivo, sabia? Mas eu não acredito nele. Disse que não era nada mágico e que era o vento porque ficamos perto do vale aqui e tudo fica dourado porque é outono quando o vento faz o uivo. Explicou a direção do vento e até desenhou no guardanapo. Tudo fez bem sentido, e é por isso que eu não acredito, sabe? As coisas bonitas não têm explicação, elas são bonitas.

Ela continua lá, a casa, e toda vez que me deixam ir no jardim, bem ali à direita das pedras brancas, fica ela toda colorida das memórias. É que se olhar sem atenção é só uma casa cinza e bege no alto do terreno mesmo, mas isso é coisa de quem tem olhos de varrer mundo, não é de nós, que temos olhos para escavar, não é? Um dia da última que nos vimos acho você me falou de usar o olho para cavar ouro no mundo e nas pessoas e que eu tinha feito isso com você. Na hora eu sorri bem de mim mesmo porque não entendi, mas agora acho que entendo. Mas se não tem você ali aí é e não é a mesma casa e eu sinto e não sinto de olhar para ela.

A menina da flor me lembrou você e ela vinha sempre e ficava me olhando. Um dia virou de lado até quase cair buscando meu olho que tava no chão. Outra vez ela amarrou o tênis do dr. Firmino na cadeira e foi bom que ri como não lembrava mais que podia. Aqui é muito silêncio e quando cadeira arrasta e não é culpa nossa é sempre bom.

Me tiraram o espelho. Que um dia quebrei ele e resolveram que eu não podia mais. Daí ficou complicado fazer barba e a dona Flora faz quando acha que tá grande. Ela diz que eu tremo muito. Eu não sei de mim que não vejo faz tempo, mas parece que todo mundo aqui tá velho. Lembra do Antônio? Então, casou! Tá com a cara chupada o bichinho, acho que não come mais. Ele vem mas agora só cuida do jardim das pedras brancas. Nunca gostei das pedras brancas. Acho que é por causa delas que as cabeças aqui ficam redondas e brancas também. Agora sempre tem flores, mas eu preferia quando elas tavam indo embora, porque logo vinha o uivo dourado e a casa voltava a viver, porque tinha você." - Manicômio e Asilo Pedras Brancas, Petrópolis, 23 de Julho de 1999.

Conto e receita: Renato Kress

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Controle

Pólvora no chão. Pólvora no chão, um estalo às quatro horas da tarde na HochstraBe e aquele a quem substituo está a cinco centímetros das minhas botas. Odeio estar perdido. Um rapaz ruivo de macacão negro está me fazendo perguntas insessantemente e tudo o que me passa pela cabeça é que Rudolph Meinkatz, a quem eu deveria estar levando algemado, virou para trás e riu quando ouviu gritarem meu nome pela Holleralle. Odioso estar perdido.

Kroitzenberg nunca gostou do delegado Appenheit. Foi o primeiro a se aproximar do corpo estendido de lado no meio fio e a retirar dos bolsos os documentos e a carteira do recém falecido delegado de Bremen. Parou à minha frente com os olhos brilhando, esperou que eu estendesse a mão e deu-me seus pertences, incluindo o anel de noivado. Não estivesse ao meu lado na carreira atrás de Meinkatz juraria que aquele sorriso displicente havia disparado contra Appenheit às escondidas. Mas ali a satisfação era genuína e reforçada pelo álibi de que estava a alguns passos atrás do novo delegado quando deu-se o tiro.

Observei a rua. Estava estranhamente impassível como se quem houvesse disparado o tiro fosse algum tipo de força tenebrosa da noite ou espírito ancestral. Pelo horário todos ali haviam visto tudo: quem disparou, de onde, para onde fugiu, qual rota tomou, tudo. Fui ter com Hazzel, diretor do correio que fechava as portas à hora do ocorrido. Seu olhar ao longe via através de mim e quando nos aproximamos ele me confessou que estranhamente não havia visto nada - "Estava de costas, batendo o cadeado, o senhor bem sabe. Tiros não se ouvem na principal, meu bom rapaz. Quando o primeiro estalo correu me agachei. Tenho esposa e duas meninas...".

"Meu bom rapaz" me irritou profundamente. Virei de lado e dei-lhe as costas assim que terminou de falar. Agradeci secamente. Estava mentindo. Fui à florista que trabalhava do lado oposto a Hazzel, Mina Gertrude ela disse se chamar. Todas essas polacas mal nascidas se chamam Gertrude ou Berta perante autoridades. Que seja. Disse-me que vira Appenheit descer o meio fio confiante, sozinho, em seu sobretudo carvão, mas que no momento do estampido, vendia crisântemos a um jovem rapaz e sua acompanhante, de maneira que escondeu-se e nada mais viu. Essa não parecia mentir, ao menos sobre isso. Afinal para que mentir se não acrescentou em nada? Para saber que passava o meio fio basta olhar a posição do corpo, o sobretudo era o de sempre.

Passei a mão da testa ao queixo irritadamente. Olhei ao redor como um caçador alucinado e todos os olhos fugiam de mim. Em vão procurei na esperança de que algum caráter nascesse por entre aqueles olhos escorregadios, aquelas mãos nervosas a varrer, a beber a fingir com agressividade latente que era apenas mais um entardecer na cidade. Mas não era. Acordei sub-delegado e em meio a uma perseguição rotineira antes de voltar para minha Mia com soldo suficiente para nosso casamento terei de passar na casa de Appenheit e falar-lhe à sua senhora e crianças. Não é uma simples tarde. Odeio estar perdido.

Corri sobre um grupo de rapazes de bom nascimento sentados à janela da taverna Grivern. De onde estavam teriam visto a tragédia por um ângulo privilegiado e, visto que estivessem sentados, não poderiam "agachar" ou "se esconder". Peguei-os de sopetão na espectativa de arrancar algo. O de cabelos negros e olhos verdes se adiantou em relatar que justamente àquela hora dois de seus conhecidos, Arendt e Werkampf, estapearam-se no centro da taverna e marcaram à alta voz um duelo para o dia de amanhã, o que chamou a atenção a ponto de estarem todos voltados para o centro da taverna quando do ocorrido. Atalhou que teria enorme prazer em auxiliar "às forças competentes" e que olharam pela janela de imediato ao estouro da pólvora, mas era um horário movimentado "com certeza quem estivesse na rua teria visto muito melhor, delegado....". A vontade de esmagar a traquéia mentirosa daquele menino me pressionou o pulso e foi quando olhei para suas mãos, sobre a mesa, girando um anel de confraria de duelos. As confrarias de duelos são muito comuns por toda Alemanha. Agradeci ao bom Deus por aquele anel. O assassino era um nobre!

Deixei as ruas tranquilo. Não havia o que investigar e ninguém me diria nada. Fui até a delegacia e peguei minhas anotações sobre Meinkatz - assassino de aluguel. Corri até o escritório de Appenheit e notei seu chapéu sobre o cabideiro. Saíra às pressas. Tanto faz. Olhei sua agenda do dia anterior: fechar club Wernhalt, OS. OS, ordens superiores. O Wernhalt era um clube aristocrático de duelistas e esse "ordens superiores" me pareceu muito do que Appenheit vinha me comunicando sorrateiramente sobre desarticular os bem armados nobres e trazer a força para os aparelhos do Estado. Ele desagradou a alguns nobres, mas qual a ponto de levar um tiro? Mandei chamar a Obenwerk, que lhe acompanhou ontem e este me confessou que Appenheit tivera uma ligeira discussão ao fechar o club. Uma discussão com Rudolf Battenberg! Sem perceber cai na cadeira de Appenheit, cabeça baixa, entre os joelhos, Battenberg não só é campeão de tiro em toda Bremen como é parente da casa dos Habsburgo. Óbvio que ninguém falaria nada. Era um crime solucionado e insolúvel.

Eis que meus olhos se levantam e vêem a ficha de Meinkatz. O que é um Meinkatz perto disso? Nada. Nada sobre minha mão esquerda. Sobre minha mão direita a agenda de Appenheit. À minha frente uma fotografia de sua esposa e crianças. Foi quando abri suas gavetas e peguei um bloco, escrevi às pressas duas páginas frente e verso, lacrei eu mesmo o envelope e mandei que Obenwerk entregasse à viúva de Appenheit. A segunda folha foi, com uma nota de cinquenta marcos, enrolada em um envelope velho e comum do nosso almoxarifado. Essa segunda folha foi entregue a Kroitzenberg para que chegasse, por vias tortuosas, aos cuidados de Meinkatz. Com um sorriso nos lábios escrevi a terceira carta à família Battenberg, sem remetente, anunciando que se acautelassem sobre suas vidas. Confesso um certo ar de frenesi ao ver as três cartas saírem de minhas mãos e seguirem seus caminhos.

Três semanas depois das cartas entregues recebi em minha mesa um buquê de flores da senhora Appenheit. Battenberg havia sido alvejado às costas por um assassino de aluguel, que foi preso a caminho do que achava que seria o encontro onde receberia a segunda parte do seu pagamento. Alertei aos Battenbergs na esperança de que alvejassem Meinkatz junto. Sentando à minha nova cadeira olhei para as flores da senhora Appenheit. Meu sorriso me trouxe o controle.

Conto e receita: Renato Kress

segunda-feira, 4 de abril de 2011

SAC*

Pernas atoladas numa piscina sem fim de vermelhos aparelhos telefônicos, tocando simultaneamente, todos, quentes, flamejando seus tornozelos e joelhos, ensurdecendo sua alma. A cintura e o tronco para fora do mar vermelho suportavam o vento congelante num sussurro inquietante. "Alô?", "aguarde um minuto por favor", "estamos transferindo sua ligação para o setor responsável", "não há nada que eu possa fazer, senhor, mais alguma coisa?", "aguarde por gentileza" e mil orquestras tocando simultaneamente músicas lentíssimas enquanto suas mãos percorriam os aparelhos tentando encontrar um equilíbrio entre queimar e congelar. A carne, ardendo em frio, quebrava partes e soltava cacos sobre os telefones vermelhos. O fedor da própria carne queimada trazido pelo vento frio a suas narinas lhe fazia vomitar e eram cabos que lhe escorriam pela boca, congelados e ardentes, simultaneamente.

Fez-se então silêncio naquela paisagem desesperadora e Antônia pôde ouvir um telefone tocando. Eram suas preces sendo ouvidas, com certeza. Mergulhou avidamente, quebrando e trincando partes congeladas de suas costas e rosto atrás do toque do telefone. A dor era tamanha que ela pensou que iria desmaiar, mas não, tinha que atender àquele telefone que parecia cada vez mais perto. Ferveu os músculos das mãos sem pele e liquefez suas orelhas tendando em vão atender aquelas brasas vermelhas. Por o que pensou que fossem horas e horas e o toque do telefone cada vez mais ensurdecedor, as brasas tocando partes dos ossos das articulações dos seus pés quando levantou um aparelho e o toque parou.

- A-Alô!
Do outro lado da linha uma voz suave, delicada, quase angelical disse polida e muito pausadamente:
- Aguarde por favor, um de nossos atendentes irá entrar em contato em breve.

Sua garganta parecia formar pequenas crostas de gelo por dentro e ela não teria forças para dizer palavra alguma quando sentiu que o vento cortante lhe encheu a boca de restos flamejantes de pós de telefones queimados. Vomitou uma tosse qualquer que lhe ardia a espinha.

- Alô!
A voz no telefone era elegante, macia. O som do vento lhe fez grudar o telefone fervente na lateral do rosto, já sem orelha.
- ALÔ! PELO AMOR DE DEUS, PELO AMOR DE DEUS, O QUE ESTÁ ACONTECENDO? ME AJUDA!! ME AJUDA, ME AJUDA!!!
A voz parecia ainda mais doce e delicada e respondeu tranquilamente:
- Com quem a senhora gostaria de falar, por favor?
- ME TIRA DAQUI!!!! PELO AMOR DE DEUS, ME TIRA DAQUI!!! ME TIRA....
E lágrimas começaram a percorrer o rosto de Antônia na forma de pequenos cristais que laceravam suas bochechas congeladas à medida que rolavam entre soluços arenosos congelados.
- EU NÃO AGUENTO MAIS!!!! PELO AMOR DE DEUS ME TIRA DAQUI!!!!
E o gosto de sangue se misturava ao frio insuportável nas paredes de sua boca. E partes do telefone já esfumaçavam partes dos ossos de sua mão quando ela ouviu a voz ao outro lado, lenta, calculada:
- Por favor, fale pausadamente. O que a senhora deseja?

- DEUS!!!!
- No momento Deus está ocupado. A senhora gostaria de pegar uma senha e aguardar ou prefere outro de nossos atendentes?

- O QUÊ É ISSO? PELO AMOR DE DEUS PARA COM ISSO!!!!! ME TIRA DAQUI!!!!
- Entendi. A senha para falar com Deus é 4563402948593920495830-3945123124523. A senhora gostaria de anotar o protocolo dessa ligação?
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! NÃO NÃO NÃO NÃO!!!!!
- Por favor, fale pausadamente. A senhora gostaria de cancelar seu requerimento?
- ME TIRA DAQUI!!! PELO AMOR DE DEUS!!!!! ME TIRA ME TIRA!!!! AHHHHHHHHHHH!!!
- Aguarde um instante, estamos cancelando seu requerimento. - Entra Berceuse de Brams.

Antônia já havia perdido os pés e tornozelos quando a voz voltou. Dois dedos de sua mão esquerda haviam quebrado, caído e começavam a chamuscar em pequenas faíscas.

- Por gentileza, a senhora gostaria de falar com quem?
- CRISTO!!!! CRISTO!!!!
- Entendi: Krishna, Aguarde por favor.

Antônia largou o telefone sobre as brasas e começou a rezar mordendo sua própria carne congelada. Foi quando ouviu a voz do telefone por toda parte, como se viesse de todos os telefones simultaneamente:
- Por favor, não deslige. A sua salvação é muito importante para nós!

Perdeu mais um dedo tateando todos os aparelhos até descobrir um em que pudesse ouvir a voz suave, melíflua:
- O tempo de espera para falar com Krishna é de aproximadamente sete anos. A senhora gostaria de pegar a senha?

- EU NÃO MEREÇO ISSO!!!! DEUS DEUS DEUS!!!!
- Olá. Para nossos registros internos gostaríamos de saber o que a senhora fazia antes de estar aqui. Lembre-se de falar pausadamente.
- ME TIRA DAQUI!!!! ME TIRA DAQUI!!!!! ME TIRA DAQUIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!
- Desculpe-me, sem essa informação não podemos prosseguir. A senhora poderia dizer qual a atividade exerce profissionalmente?
- TELEMARKETING!!! EU TRABALHO COM TELEMARKETING!!! PELO AMOR DE DEUS ME AJUDAAAAAAAAAAAA!!!!
- Ah, telemarketing? Aguarde, sua perdição é muito importante para nós.
- COMO? PERDIÇÃO?
- Oh, perdão! "Salvação", a sua "salvação" é que é importante para nós!

Foi quando seu pulso, frágil, quebrou misturando o telefone a todos os demais, vermelhos, flamejantes...
- MAS QUE DIABOS!!!!

- Pois não?

Conto e Receita: Renato Kress

* Serviço de Atendimento do Capeta

quinta-feira, 31 de março de 2011

Alquimia Íntima

E foi quando ela percebeu que estava enfeitiçada. Que o feitiço não é feito de poções mágicas com extratos de óleos de borboletas púrupuras ou pós de casco de unicórnio. Ele é feito da mágica de pequenas atitudes ao longo do tempo. Como quando ele enviou uma mensagem na hora em que ela bateu com o carro dizendo: "tenha um ótimo dia, qualquer coisa me liga!" Ou quando chegou na portaria e recebeu aquele livro que procurava a semanas com uma dedicatória simples: "Gotcha!" e o nome dele.

Ela percebeu como sempre percebemos, tarde demais. O feitiço havia amarrado as águas internas e agora ela vivia fluindo a mão ao telefone, os dedos ao msn, o olhar às poucas fotos que tinham no celular. Ela presentia naquele feitiço um toque de punição, porque toda vez que saía sem ele deixava enfaixado no quarto o próprio ânimo. Percebeu isso pela palavra "armadilha", que ecoava difusa pelos seus passos no centro da cidade. E foram tantas várias pequenas tocaias tão bem almofadadas pelo perfume das lembranças dele que agora ela já oferecia um sorriso a cada insistente vez que fosse enredada por essas pequenas memórias.

Foi quando olhou ao redor e passou a observar os caminhos que tantos pés levavam tantas gentes e que era hora do almoço e o centro fervia de pés flamulando. Pensou que nem todos percebiam que cada andar soltava pontas de tecido e cabelo, células e pontas de cigarro que formavam uma linha, um fio entre o antes e o próximo e percebeu a vida como teia. Foi quando sorriu ao perceber ele do outro lado da rua e entendeu a necessidade dos nós.

Conto e Receita: Renato Kress

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