sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Almas gêmeas

Enquanto isso, naquele site de relacionamento:

- Oi, gostei da foto. Você é enfermeira, médica?
- Não. Farmacêutica. Me chamo Indústria. "Farmacêutica" é só o titulo.
- Interessante. E você faz o quê? 
- Crio doenças, remédios com vários efeitos colaterais, pago congressos de fim de ano em resorts de luxo para os médicos que baterem minhas metas de vendas, essas coisas. E você? Esse "M.F." é de quê? Marco Feliciano?


- Não, que absurdo! Eu tenho escrúpulos! Quer dizer, um pouco mais... prazer, Financeiro, Mercado.


- Que imponente esse nome! E você faz o que? 


- Engraçado... tava aqui pensando. Acho que fazemos a mesma coisa. Onde você falou "doenças" eu falaria "crises", "remédios" eu já trocaria por "pacotes econômicos do FMI" e "médicos" por "correntistas da bolsa" ou "empresários de comunicações".


- Incrível, não é? E a gente acha que não vai encontrar ninguém nesses sites... você acredita em amor à primeira teclada?


- Eu só acredito em interesse, na verdade. E você?


- Agora eu acredito em amor...


por Renato Kress

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A ilha P´ong-lai

As pontas dos dedos eram puro hematoma pisado, cascas de calos amarelados e unhas cercadas de pequenas postas vinho escuro de sangue coagulado. Os músculos do punho, das costas e joelhos se retesavam juntos, enquanto ele vencia as últimas escarpas pedregosas que separavam o leito do rio cuja vazão já se tornara um murmúrio vencido depois de oitocentos metros de escalada. A névoa lacrimejava seus olhos e algo de ácido irritava suas narinas quando finalmente sua mão esquerda encontrou um ângulo reto entre a parede de rochas e o chão de gramíneas. Era ali.

Os primeiros passos, mórbidos, pesaram suas costas sobre seus joelhos cansados e quase o tragavam ao chão. A névoa ácida bruxuleava pelo caminho e qualquer coisa que estivesse a mais de três metros não era mais que uma espécie de contorno sutil ondulando em frente a uma nuvem de cegueira branca. Depois de vinte passos na direção do cheiro ácido que parecia ventar de algo imediatamente à sua frente, seus olhos viram pontos amarelos, luminosos, voando sobre a névoa. À medida que seus joelhos traziam os "vagalumes" até que se tornassem tochas, ao seu lado, ele pôde perceber a silhueta de uma casa de madeira ao mesmo tempo em que o vento lhe cortava um zunido estridente nas orelhas e passava por entre as frestas de lã do seu casaco irritando a área dos rins. As barras molhadas das calças começavam a ficar irritantemente frias no momento em que seu punho encontrou a porta, fazendo um barulho oco, mais baixo do que ele esperava.

Os olhos amendoados de uma menina de não mais de nove anos abriram a porta e o convidaram a entrar. Seus dedos ágeis indicaram que o sapato não entraria para além da soleira da porta e, enquanto ele descia as mãos para desamarrar o cadarço e o velcro da bota, a menina sumiu. Foram menos de três segundos para que ela voltasse com um balde de cerâmica negra e interior dourado, com uma infusão fumegante com um cheiro intenso de ervas e eucalipto. Aquela rapidez só era menos inquietante que o sorriso dela. Deixou o balde sobre o assoalho em frente a uma cadeira e novamente indicou, agora com o olhar, que ele fosse se sentar por ali, com os pés naquele refogado aromático.

A casa pareceu a ele muito maior por dentro que por fora, toda acarpetada nas paredes com tapeçarias que provavelmente pertenceram à bisavó da menina. Eram faisões, fênixes, grous coroados,  pavões, perdizes e outras aves que ele não conseguiu identificar numa profusão inebriante de cores e formas e qualidades variáveis de trançado. Tudo muito bem conservado e limpo, principalmente os fios de ouro que cintilavam por todas as tapeçarias. Ele perguntou à menina sobre sua avó e recebeu, como resposta, um pano quente que foi amarrado sobre sua testa e um chá quente, forte e amargo demais para ser tomado de primeira, ainda que ele tivesse muita sede. O chá veio na mesma cerâmica pintada de negro, com o mesmo interior dourado e luminoso.

Ele voltou a perguntar sobre a avó, a menina voltou a oferecer o chá. Com certeza não falavam a mesma língua, apesar de ele já estar naquela estranha ilha por dois longos anos essa era a segunda pessoa com quem se encontrava. A primeira era um demente alucinado, com certeza. Oito estações do ano em busca daquela casa, no alto daquelas pedras, e parece que a dona não estava. De qualquer forma a neta fazia o seu melhor e, com o calor nos pés, vinham os sons de grandes asas batendo ao seu redor. Ele procurou o som, mas a menina apontava intensamente para o chá.

A cada gole o som do bater das asas ficava mais nítido, as cores das tapeçarias pareciam se mover com as sombras das aves como se levantadas por algum vento e todo o amarelo das asas das aves parecia começar a escorrer em direção aos seus pés. Foi quando ele sentiu um frio pela espinha que desceu formigando seus órgãos internos. Uma vontade incontrolável de urinar fez com que ele fechasse os olhos enquanto tentava controlar a bexiga. A vontade passou como veio e seus olhos se arregalaram procurando pela menina, que parecia ter agora uns dezoito ou dezenove anos e deslizava os lábios numa espécie estranha de sorriso.

As mãos quentes da adolescente tocaram as mãos sensíveis, frias e laceradas da subida rochosa e ele viu as feridas se fechando, os coágulos diminuindo, os calos sumindo e a pele rejuvenescendo. Ele olha, assustado, para a linda mulher de trinta e poucos anos descendo os lábios sobre os seus. Ele fecha os olhos e sente seus lábios cicatrizarem das rachaduras do frio, sua língua ficando novamente úmida, seu estômago descolar as paredes e todo seu corpo sendo preenchido por uma sensação quase imaterial de saciedade física, íntima, erótica, intuitiva, espiritual. Seus braços são tomados por um arroubo de energia, seus músculos parecem leves e plenos de vigor.

Instantaneamente ele levanta. Levanta ainda beijando aquela boca doce que vai ficando cada vez mais leve, macia, seca e amarga. Seus braços se percebem tocando uma pele macilenta, murcha e arenosa. Seus olhos se abrem e num grito ele arremessa aquela carcaça idosa que substituíra a bela menina. Ele está em pânico, sua respiração oscila rápida, grave, pesada. Um vulto aparece por trás da cortina, a voz da velha diz coisas incompreensíveis colada ao carpete, segurando com quase nenhuma força ao pé de uma cadeira.

Ainda hesitante, suas costas se arqueiam para perto da cortina e ele puxa um pano frisado para encontrar apenas o reflexo de si mesmo, mas o reflexo de si aos dezesseis anos de idade, não mais aos seus costumeiros cinquenta! Ele sorri, tocando o próprio rosto, deixa que os dedos indicador e médio passeiem sobre seus próprios lábios, enquanto se aproxima de si mesmo arregalando os olhos para o reflexo no vidro, arreganhando os dentes num sorriso lascivo. Sua mente o leva às palavras no manuscrito mágico do alquimista Li Chao-kiun, onde ele recomenda ao imperador Wu, da dinastia Han:

"Sacrificai o corpo ao frio e ao forno (tsao), e podereis atrair seres (sobrenaturais); quando os tiveres feito aparecer, o pó de cinábrio poderá ser transmutado em ouro amarelo; quando o ouro amarelo tiver sido produzido, com ele podereis fabricar utensílios para comer e beber e então tereis uma longevidade prolongada. Quando a vossa longevidade for prolongada, poderei ver os bem aventurados (hsien) da ilha P´ong-lai, que fica no meio dos mares. Na maior escarpa sob o rio dessa ilha sacrificarás a ti mesmo perante a velha e já não morrereis." 

A última frase não parece fazer muito sentido, mas quem se importa? Ele era jovem de novo!! A velha, inútil, fraca e indefesa mal conseguia se erguer do chão! Que importa que por alguns instantes tivesse sido a mais bela das mulheres? Já não passava agora de um saco de pele e ossos sobre o assoalho! Não poderia fazer mais nada! Foi quando sentiu um calafrio nas suas costas. Um calafrio doloroso. A mão correu para a região do rim e voltou empapada em sangue. Ele ouvia o barulho de asas, enquanto as pernas fraquejavam e sua cabeça batia estilhaçando o vidro da janela. Virou-se desesperado procurando pela velha. Ela não estava mais no chão, tudo girava muito rápido, o sangue escorria quente e ele se arrastou para perto da porta ouvindo barulhos de asas. Sua visão embaçava, seus dedos ficavam leves e fracos, por alguns instantes pareceu ver o reflexo de seu rosto, aos oitenta anos de idade, no fundo dourado do balde onde colocara os pés. Olhou seus dedos, ensanguentados, envelhecidos. Gritou e abafou o próprio grito, desesperado, ao ver uma coruja enorme, negra, com o bico encharcado de sangue gotejante, pousar no delicado ombro da jovem menina que lhe abria novamente a porta.

Conto por Renato Kress 

domingo, 28 de julho de 2013

Filiações

- Já percebeu como acontece invertido?

- O que?

- A vida. Esperam que nasçamos filhos e morramos pais. Com sorte avôs. Mas eu tenho que te contar - e eu sei que não vai te surpreender num mundo onde tudo parece estar de cabeça para baixo - que isso não faz muito bem sentido. Na verdade só faz se for invertido. A gente cresce pai e envelhece filho. Cresce pai de idéias, projetos, ações e planos e envelhece filho dos nossos dias, atitudes, posturas e coragens. A gente envelhece e vai se tornando cada vez mais refém das nossas omissões e covardias ou apadrinhado pelos nossos projetos que criam asas embaixo das quais curtimos o inevitável peso do tempo. É preciso criar uma estrutura forte, alicerce robusto ainda que quase sem nenhum peso, afinal, dormiremos nosso mais longo sono abaixo das asas desses dias, talvez essa seja a maior arte da vida, sabe? A intenção daquela palavra enviesada, aquele beijo incerto, a taquicardia ofegante que prenunciou aquela tomada de atitude antes da entrega da sua alma a um novo caminho ou a um novo amor, aquela palavra amarga que terminou uma amizade, aquela distância estranha e intransponível criada entre os que um dia foram íntimos, tudo isso passa. Quando nos damos a esses pensamentos logo fugimos - a mente foge, é a natureza dela - para Shan-gri-lá, para o Éden, Eldorado, Atlântida, acabamos na armadilha aconchegante de idealizar a "toda poderosa" felicidade. Se a felicidade existe? Ela é como um soco na boca do estômago. Ela vem, preenche todo aquele instante, impede que você pense em qualquer outra coisa que não seja ela e depois? Ela passa. A vida é aquilo que passa. O cara que escreveu Don Quixote escreveu que "somos filhos de nossas próprias obras". Que tipo de obra você quer que te cuide na velhice? Precisamos estabelecer marcos, decisões que cavarão passos, tirando pequenas camadas de lama e terra do chão, húmus com os quais ergueremos o casebre ou o palácio de onde veremos que tipo de filhos nos tornamos, que espécie de pais merecemos. Se tivermos sorte cresceremos pais, gerando e criando e espalhando a palavra de nossas vocações, de nossos corações e almas por onde passarmos. Se tivermos sabedoria, até que a matéria de nossas mãos e pés e olhos e bocas se desfaça em átomos que em breve povoarão laranjas, sequóias e turbinas, morreremos filhos dignos dos dias que tivemos. Você acha que se parece com os dias que já teve?

Conto por Renato Kress

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A última praia de Estêvão

Estêvão é funcionário público, gosta de ler e gosta de sol. Acordou antes de Ana, fez um pequeno lanche e saiu, naquele sábado, para a praia, no Leblon. Ele e seu livro do Chico Buarque. Alugou uma cadeira, sentou na beira da praia e leu. Chegou a perceber de relance uma sombra voadora sobre sua cabeça, mas não deu maior atenção. Seu compromisso, ali, antes de Ana chegar, era com as letras. Em dois segundos pulou na cadeira e soltou um sonoro "puta merda!" quando sentiu uma batida de asas desesperadas entre seus joelhos. O pombo ficara preso embaixo da sua cadeira e se debatia arrulhando desesperado.

Sua mão correu para arrancar a ave dali enquanto sua mente corria de volta para todos os estresses e desentendimentos da semana perguntando se nem na "merda" da praia ele teria um pingo de paz! Apertou uma massa de carne dura, musculosa e careca. Não parecia um pombo, mas fosse o que fosse estava bem seguro e ele iria arremessar para bem longe da sua bunda, da sua cadeira, do seu sábado! Sua primeira impressão foi a de que pegara um rato careca, mas não tinha rabo, tinha braços e pernas! Um pequeno homem, de uns vinte centímetros, careca, e estava mastigando metade do corpo do pombo.

Aquele homenzinho careca e nú olhou assustado para Estêvão e praguejou numa língua estranha, com os olhos arregalados. Seu braço esquerdo, preso, entre o dedo médio e o indicador, batia na mão de Estêvão para que soltasse. Entre curiosidade, medo e nojo, Estêvão enfiou homenzinho e resto de pombo no seu saco de pano junto com celular e livro e olhou ao redor. Era cedo ainda, poucas pessoas por ali e ninguém parecia ter visto aquela cena absurda.

O saco se debateu e caiu na areia e ele puxou a corda fechando antes que aquele homenzinho saísse. Depois olhou novamente ao redor e começou a se acalmar, respirou fundo e quis olhar de novo. Precisava reforçar a insanidade ou refazer a realidade, ali.

- Pirú, pirú, porra!
- O quê?
- Porra, caralho, porra, porra!
- Oi, calma! Eu... qual é o seu nome? O que é você? Larga o pombo!
- Nã, nã, meu, meu!

A voz era áspera e seca, como se arranhasse a garganta do homenzinho. Estêvão estava com aquele saco entre as pernas, vendo, lá dentro, aquele pequeno homem nú agachado triturando os ossos das asas do pombo com sua minúscula e firme mandíbula. Sua boca sem nenhum pelo estava encharcada de sangue e, às vezes, ele olhava para cima dando a nítida impressão de que não iria dividir seu café-da-manhã com aquele grande homem peludo.

- Eu não quero! Pode comer! Você... tem nome?
- Dááá, meu meu! - Disse o pequeno virando de costas para aquela grande cabeça no céu da bolsa.
- Já disse que não quero! Qual o seu nome?

E a mão de Estêvão entrou na mochila para apertar aquele ser estranho e careca. A mão precisava confirmar a vista. Dentro do saco o homenzinho se sacudia e tentava não sair, se agarrando no tecido e chutado o pulso e tentando morder aquela mão gigante...

Atrás e bem perto de Estêvão, com uma camisa do Vasco, estava João, instrutor de MMA, treinador de boxe, personal trainer e um cara tranquilo. Tranquilo quando não está com dois sobrinhos pequenos e a namorada, Mariana, sentados de frente para um cara que está, de costas, com a mão enfiada no meio das pernas, falando baixo e sacudindo os joelhos excitadamente no meio da praia!

João pede licença, levanta e vai até Estêvão, respirando fundo com os punhos cerrados.

- Amigo, que porra é essa?
- Hein? - Estêvão levanta os olhos assustado e fecha os joelhos sobre a mochila. Não conseguiria explicar por quê, mas estava completamente envergonhado, rosto vermelho, fala embargada.

- Eu, eu é...
- Mermão, o que é que você tava fazendo aí com a mão entre as pernas, seu animal? Tem criança aqui, infeliz!- e partiu pra cima de Estêvão enquanto falava. Este largou o saco se debatendo na areia e esticou as mãos para se explicar.

- Cara, vira essa mão pra lá! Porra! Cê tá maluco?
- Não, peraí, eu, é...
- Cara, olha só: eu tô com meus dois sobrinhos e a minha namorada aqui atrás e eu não vou ver você com a porra das mãos no meio das pernas se sacudindo na nossa frente! Entendeu? - Os olhos arregalados de João e sua orelha de brócolis diziam a Estêvão que era bom não argumentar muito naquele momento.
- É... tá... aham, desculpa então... eu...
- E não vem pra cima de mim, não, porra! Não explica nada! Fica aí e fica quieto, seu... doente!

Estêvão sentou com o coração a mil, boca aberta e mãos tremendo. O saco continuava se remexendo na sua frente e uma voz rouca saiu lá de dentro:

- Ná, ná... SEU DOENTE!

João já estava de costas. As costas de João voltaram para trás enquanto seu punho acertou em cheio a orelha de Estêvão, que caiu com cadeira e tudo, de lado, na praia quase deserta.

- Como é? Tá de sacanagem comigo, seu infeliz?
- Ná, ná... INFELIZ!
- Não, não, é... o saco! - implorou Estêvão, com os braços cobrindo o rosto, encolhido na areia.
- Quer no saco? Maravilha! Depois quer que eu te espanque onde mais? Pervertido filho da... o que é isso no saco? Tem um bicho no saco?

Estêvão ainda estava engatinhando desorientado e limpando a areia do rosto sem conseguir ouvir direito quando João avançou pra cima do saco.

- O que que tem aí, cara? Você tava passando o pau num gato, seu doente? É um pombo? Que porra é essa?
- É... eu...

O mais óbvio não passou pela cabeça de Estêvão. Na verdade alguma coisa nas entranhas dele estavam reviradas ali, e não era (só) o soco, nem a areia, mas uma estranha vergonha daquele ser pelado se revirando e grunhindo no seu saco. Ele não tinha como explicar. Isso para Estêvão era o maior crime, mais doloroso que o peso da mão de João era a imagem daquele homenzinho nú e careca falando palavrão e babado de sangue dentro do saco. O saco era dele... como explicar?

- Tô falando com você! É o quê? Me dá esse saco aqui!
Puxaram ao mesmo tempo o saco, que voou para perto da água. A confusão estava atraindo pessoas e um guarda municipal se aproximou com o cacetete na mão. Estêvão ajoelhado, João chamando o guarda, o saco perto da água, pessoas se avolumando, crianças indo pegar o saco...

- Tem um gnomo pelado no saco! Pronto! É isso! Me bate se quiser, cara, mas tem um gnomo lá! Pega o saco, olha! Ele... ele comeu um pombo e eu tirei ele debaixo da minha bunda! Pronto! Olha lá, pegaram o saco, vê lá dentro! Vê!

A resposta foi tão desesperada e absurda que as pessoas começaram a rir enquanto duas crianças traziam o saco para o guarda que o abriu de cabeça para baixo, deixando cair um celular, um livro e um lápis, e só.

Desde então Estêvão só pode ser encontrado na piscina do Flamengo, e com Ana.

Conto e receita por Renato Kress

terça-feira, 9 de abril de 2013

Uma noite entre os Ainos

Naquela noite a lua subiu lenta, deixando um rastro de negrume como um vapor quente que nos abraçava as carnes. Eram dois extremos geográficos, o limite norte da ilha mais ao leste do mundo. Abocanhava-me a visão do Pacífico e uma pequena mão, peluda, me puxava pelo braço instantes antes de que os deuses do sono me tragassem para trás. Era Pé-nú. Dei-lhe esse nome porque de todos seus parentes ele era o único cujo pé não tinha pelos. De resto era como todos os outros: baixo, membros socados e rijos e de pelagem espessa, com olhos rasgados de forma que alguns eu sequer reconheceria se dormiam ou não.

Pé-nú me puxou para a floresta ao norte de Kamakuri, repetia, a intervalos de três a cinco minutos, os mesmos sons que eu escreveria como "Kamui Omante" ou algo assim. Entramos no negro da floresta, sem tochas, sem luzes. Antes que meus olhos se acostumassem às trevas verdes tive de fazer das mãos olhos e tateava no vácuo, escorregando e batendo a cabeça muitas vezes. Numa delas Pé-nú disse a mim a mesma palavra que usava quando se dirigia às crianças: "Korom" (esse era o som). Me senti ridículo. Tinha e tenho ao menos uma década a mais de vida que esse pequeno aborígene do oriente.

Meus dedos sentiam o áspero frio de uma parede de rochas. Estávamos entrando em uma caverna. Percebi que meus olhos haviam se acostumado ao pouco de luz quando olhei para trás e vi a silhueta de outros dois amigos de Pé-nú chegando para nos acompanhar. À frente já não enxergava mais nada. Apenas o frio das rochas úmidas do orvalho. Meu coração tropeçava intenso a cada novo passo, a cada escorregadela, e minha respiração procurava imitar a respiração tranquila e ritmada dos meus acompanhantes. Algum tempo e senti que conspirávamos, respirávamos juntos ali no útero da noite. Isso me acalmou.

O sopro quente veio intenso, trepidando meu coração e concentração. Era uma nuvem, uma nuvem negra de dentes e garras e estava a menos de centímetros de nossas mãos e naquele íntimo espaço de concentração arrombei meu peito com o terror e então uma torrente de pés e joelhos e lascas de pedras e topos de caverna que se batiam com força na minha testa me trouxe de volta a luz agora perfeitamente visível da lua entre as folhagens. E todos subiram nas árvores, e Pé-Nú me empurrou para cima por duas vezes antes de descobrir que seria mais simples subir e me oferecer a mão. Havíamos ido para além de tudo o que é proibido e encararíamos, agora, o ódio do senhor das trevas. Era possível ouvir seu grunhido, seus berros e as rochas que se mexiam enquanto ele saía à nossa procura, à procura dos que haviam invadido seu território.

Pé-nú se pôs em pé, sobre o galho em que estava e, numa posição altiva, mergulhou seus olhos em mim e bateu no peito por duas vezes. Coisa que até então eu só havia visto os guerreiros daquela tribo fazer. Acho que ele queria me dizer que agora era um guerreiro, ou estava prestes a se tornar um. Ele me forçou a levantar e fazer o mesmo, mas minhas pernas fraquejaram, meu coração rasgava meu peito e minha respiração estava me fazendo ver cores à borda dos meus olhos, o que era impossível, àquela hora da noite.

Acordei perto de uma chama, amarrado a uma árvore na periferia de um grande buraco no chão. Sobre esse buraco estava uma grade, uma grade decorada com pedras e panos coloridos, um desses panos ficava no fundo da grade e era de um vinho vivo. Minha curiosidade ferveu quando o pano se moveu lentamente uma, outra e então outra vez. Olhei com atenção por entre as grades e pedras e panos e vi uma forma triangular e uma forma redonda. A forma triangular se movia mais rapidamente e a redonda seguia, vezes sim, vezes não, mas sempre mais lenta. O que poderia ser aquilo?

Com metade do meu corpo sobre a grade vi um focinho saindo da ponta da forma triangular. Poderia dizer que nos "vimos" simultaneamente, porque aquele focinho acelerou para a borda do buraco com uma velocidade inacreditável na minha direção, com presas brancas enormes, deixando o cobertor vinho para trás e revelando a presença gigantesca de um urso negro.

Devo ter desmaiado de novo. Senti uma dor avassaladora na minha mão esquerda e, ao olhar, vi faixas cobrindo a ausência de um dos dedos, o anelar. À época pensei que eles haviam dado meu dedo ao urso, depois percebi que não foi exatamente isso. Acabou sendo mais fácil conviver com a falta do dedo do que  explicar à minha Lia o sumiço do anel.

Fomos aleitados e cobertos com panos limpos. Eu e o urso. Tomávamos sucos adoçados, preparados especiais, comíamos o que havia de melhor. Depois da terceira noite meu receio de que eles cortariam outra parte do meu corpo foi se desvanecendo. Estava claro que o urso havia arrancado aquele dedo e eu havia desmaiado. A cada dia me convencia de que o urso se irritou ou fascinou com o brilho do anel ou simplesmente eu havia colocado a mão para a frente esquecendo que havia, entre suas presas e garras e eu, uma grade que me protegeria se eu desse um salto para trás. Engordei nesse meio tempo. Bastante.

Aos poucos comecei a compreender a lingua dos familiares de Pé-nú. O urso era uma divindade da montanha e uma espécie de "espírito da lua". Comecei a pensar que aquilo fazia sentido porque o urso desaparece no inverno, quando a lua está mais longe daquelas ilhas no horizonte, e reapareceria na primavera, quando o urso termina de hibernar. O pouco que eu compreendesse ali teria de ser o suficiente ou entendi errado. O fato é que o urso era o espírito ordenador ou divisor. Dividia os quatro momentos do dia, as estações do ano, os elementos. Percebi a relação dele com os elementos quando um xamã desceu, embriagou o animal e fez pequenos experimentos com sopros, pedras, água, madeira, ferro e fogo. A cada um ele respondeu de uma forma, e o xamã pareceu às vezes preocupado e às vezes contente.

Um dia trouxeram uma corda bem grossa. Amarrada em forca. Estavam muito tristes, mas resolutos. Parecia uma tristeza ritual, fingida. Tiraram a grade, embriagaram o animal, ofereceram um banho ritual ao urso que demorou-se em cantos e pétalas de flores. O animal, embriagado, foi amarrado à forca e içado usando-se, para isso, a árvore em que eu estava amarrado. Foi um espetáculo terrível. A dor do peso monumental do animal sendo tensionado pelo seu pescoço parecia trazer rapidamente a consciência de volta, mas não foi o suficiente. Em poucos minutos a energia vigorosa de seus músculos relaxou, para sempre. Todo esse espetáculo me enojou, as comidas que deram ao animal também foram oferecidas, como sempre, a mim, e minha glote já estava se preparando para devolver tudo diretamente ao buraco de onde meu companheiro de cela havia sido dolorosamente içado. Foi quando, num arroubo de sanidade, vi Pé-nú com a mesma expressão ritual de tristeza, caminhando em minha direção, com os braços baixos. Na sua mão direita, uma corda.

O zunido ensurdecedor de mais de trinta arcos simultaneamente vazando o ar ao meu redor jogou meus olhos para o grande urso negro, agora crivado de flechas. Voltei para Pé-nú, de olhar resoluto a menos de três passos de mim. Me levantei. Coloquei os pés na largura dos ombros, virados para frente, estufei o peito, arregalei ao máximo meus olhos, peguei minha coxa com a mão esquerda e, jogando o cotovelo direito para fora do corpo, bati com a mão direita fechada no meu peito, por duas vezes. Foi o que vi Pé-nú fazer no galho, foi o que me veio à mente. Foi o que me salvou a vida.

Antes que eu fosse embora eles me presentearam com um dente do urso. O mesmo tipo de dente que eles colocavam, afetuosamente, sobre os berços das crianças, como as patas e garras que colocaram sobre as portas das casas, rezando em minha despedida, para que a força vital do urso pudesse retornar dando a eles mais força e astúcia, para que o "espírito do velho", do "avô da floresta", retornasse para conviver com eles e os alimentar de força e sabedoria. Para que ele não praticasse a possessão, mas se prestasse a ser parte da magia e da vida daquele povo.

Ao ir embora tentei explicar para Pé-nú que seu povo estava morrendo, que era preciso ir a novas ilhas, que o progresso estava chegando e os destruiria. Afinal, que suas crenças não faziam o menor sentido! Ao que ele me respondeu algo como: "Estamos morrendo sim, você tem razão. O avô do avô do meu avô costumava caçar sete ursos por vez e esse ano só tivemos um. Então nosso povo está fraco. Quando tivermos mais ursos então. Aí talvez o seu povo fuja de nós."

Conto e Receita: Renato Kress

segunda-feira, 25 de março de 2013

A máquina

- Então é assim que tudo funciona por aqui, Fernanda.
- ..."tudo?" como assim "tudo"? Eu acabei de chegar, não sei sequer o seu nome... Espera aí, que lugar é esse?
- Prazer, Deus. Esse é o lugar onde fabricamos as mentiras. Todas elas. E é preciso não perder tempo. Eu expliquei tudo. Não me interprete mal, mas é isso. Você não estudava ouvindo gravações de aulas enquanto dormia? Te expliquei com você deitada ali, você ouviu. Confia, tá tudo no inconsci...
- Para tudo!
- Não dá. Isso assim não tem como "parar", minha filha. Agora fica aqui com Deus que ele vai...
- Espera! Você me disse que era Deus!
- E sou!
- E agora está apresentando esse outro aí. Ele nem parece Deus!
- E eu pareço?
- Bem, mais que ele, sim!
- Olha - com licença Deus, já te chamo de volta - vamos do começo: você morreu e então estamos aqui. Deus então me pediu para te explicar como funciona esse setor e você dormiu no meio da explicação. Tudo bem, acontece quando a gente chega, ficamos meio moles mesmo. Mas não podemos parar, sabe? Essas mentiras não se criam sozinhas! Você tem que afrouxar os parafusos delas todas, senão duram demais!
- Isso aí é uma mentira?
- É. Como tudo mais aqui.
- Mas se você é Deus...
- Eu e Ele ali e aquele cara lá no alto também...
- E eu?
- Olha, na verdade você também, mas isso vem com o tempo, não precisa se apressar...
- Mas porque temos que ficar aqui fabricando mentiras?
- Na verdade estamos afrouxando verdades...
- ...que seja. Mas por que isso, com que propósito?
- Lembra do Ernani?
- Meu marido.
- Ex-marido. Você morreu, Fernanda.
- Sim, o que tem ele?
- Você amou ele todos os seus dias?
- Claro! Levamos uns 30 anos para nos encontrar e nunca mais estive com nenhum outro homem depois!
- Nunca?
- Claro que não!
- E o Samuel?
- Que Samuel, você está louco? O Samuel foi um namorado de faculdade, isso não faz o menor sentido!
- Nunca transou com o Ernani pensando no Samuel?
- Que mente podre a sua, hein "Deus"!
- Você vai querer mentir para mim?
- ...tá, e daí? Pensei no Samuel sim! Duas ou três vezes!
- Quatrocentas e oito...
- Como assim?
- Fabricamos aqui, sabe? Tá vendo aquele ponto verde saindo daquele tubo azul piscina?
- A-hã.
- É um "Gustavo", mas só na casca, o miolo é "Antônio".
- E por quê se fabricam mentiras no Céu?
- Pensa nos impostos que você pagava, lembra do IPVA? Eu te peço IPVA e você lembra dos buracos na rua. Lembra  nas vezes que a Paulinha e o Felipe te atrasavam para o trabalho brigando ou quando você queria dormir até mais tarde e dizia "tá tudo bem"? Então. Vê aquela cachoeira de bolinhas ali?
- Uau! Que incrível! Como pode algo tão grande? O que é?
- A saída do tudo do "tá tudo bem", é uma das nossas maiores refinarias!
- Tem maior que essa?
- Claro! Várias! Algumas piorando a situação, outras melhorando, depende mesmo do interesse de quem precisa. Aí nós vamos lá e criamos, por isso você está aqui.
- Eu vou criar mais mentiras?
- Sim, temos uma demanda inesgotável! Quando estamos lá do outro lado estamos mergulhados nelas, quando estamos aqui estamos criando elas. É assim que funciona! Você lembra das aulas de física no colégio, de ótica? Sei que lembra. Lembra do fenômeno da "refração total" quando o ângulo da luz incidindo sobre a água vai aumentando até que toda a luz é refletida de volta e não entra mais na água? Então, é isso! "Lá do outro lado" somos peixes! A gente não suporta o ar! Muito ar nos mataria! Pense onde você estaria sem todos esse "tá tudo bem", "eu te amo", "nada não", "sem problema", "eu me lembro sim" e "eu não me importo"...
- Então você está aqui para enganar todo mundo?
- Eu e você! E isso é um trabalho de amor! Onde você estaria sem todas essas engrenagens? Tá vendo aquele "vai ficar tudo bem"? É do Ernani... pra Paulinha...

Conto e Receita: Renato Kress

terça-feira, 19 de março de 2013

Anais das imperatrizes da água

"...
A água, meu Senhor, flui do mais alto para o mais baixo, levando consigo tudo o que não tiver boa estrutura, toda forma solta que esteja insone, despregada de raiz e sem a devida atenção. A água se move em ondas, em filetes e em rios, como a seiva vermelha nas tuas veias, como o sangue verde esbranquiçado dos troncos. Um veio d´água irradia filetes de vida para dentro da terra onde o solo breve proliferará sua pelugem verde onde o Senhor descansará seus cabelos. A água traduz movimento em vida e é necessário honrar o que ela traz, Senhor.


Honrar os presentes da água é honrar aquilo que chega e te acelera as águas internas, aquilo que te flui intenso e ondeia forte nas praias do coração. A água, Senhor, fará de palavras pétalas e de pétalas sílabas e de sílabas contratos e então será preciso honrar os contratos, nutrir a quem te nutre.

Haverá imperatrizes das águas, todas fluidas e lânguidas e lívidas e a corrente que verter elas até você terá de ser alimentada. Há de encontrar-se a nascente desses rios não para controlá-la, mas para preservá-la..."

 - Pedaço do manuscrito tropeçado nos meus pés por uma onda, em um sonho.


Conto por Renato Kress

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