terça-feira, 9 de abril de 2013

Uma noite entre os Ainos

Naquela noite a lua subiu lenta, deixando um rastro de negrume como um vapor quente que nos abraçava as carnes. Eram dois extremos geográficos, o limite norte da ilha mais ao leste do mundo. Abocanhava-me a visão do Pacífico e uma pequena mão, peluda, me puxava pelo braço instantes antes de que os deuses do sono me tragassem para trás. Era Pé-nú. Dei-lhe esse nome porque de todos seus parentes ele era o único cujo pé não tinha pelos. De resto era como todos os outros: baixo, membros socados e rijos e de pelagem espessa, com olhos rasgados de forma que alguns eu sequer reconheceria se dormiam ou não.

Pé-nú me puxou para a floresta ao norte de Kamakuri, repetia, a intervalos de três a cinco minutos, os mesmos sons que eu escreveria como "Kamui Omante" ou algo assim. Entramos no negro da floresta, sem tochas, sem luzes. Antes que meus olhos se acostumassem às trevas verdes tive de fazer das mãos olhos e tateava no vácuo, escorregando e batendo a cabeça muitas vezes. Numa delas Pé-nú disse a mim a mesma palavra que usava quando se dirigia às crianças: "Korom" (esse era o som). Me senti ridículo. Tinha e tenho ao menos uma década a mais de vida que esse pequeno aborígene do oriente.

Meus dedos sentiam o áspero frio de uma parede de rochas. Estávamos entrando em uma caverna. Percebi que meus olhos haviam se acostumado ao pouco de luz quando olhei para trás e vi a silhueta de outros dois amigos de Pé-nú chegando para nos acompanhar. À frente já não enxergava mais nada. Apenas o frio das rochas úmidas do orvalho. Meu coração tropeçava intenso a cada novo passo, a cada escorregadela, e minha respiração procurava imitar a respiração tranquila e ritmada dos meus acompanhantes. Algum tempo e senti que conspirávamos, respirávamos juntos ali no útero da noite. Isso me acalmou.

O sopro quente veio intenso, trepidando meu coração e concentração. Era uma nuvem, uma nuvem negra de dentes e garras e estava a menos de centímetros de nossas mãos e naquele íntimo espaço de concentração arrombei meu peito com o terror e então uma torrente de pés e joelhos e lascas de pedras e topos de caverna que se batiam com força na minha testa me trouxe de volta a luz agora perfeitamente visível da lua entre as folhagens. E todos subiram nas árvores, e Pé-Nú me empurrou para cima por duas vezes antes de descobrir que seria mais simples subir e me oferecer a mão. Havíamos ido para além de tudo o que é proibido e encararíamos, agora, o ódio do senhor das trevas. Era possível ouvir seu grunhido, seus berros e as rochas que se mexiam enquanto ele saía à nossa procura, à procura dos que haviam invadido seu território.

Pé-nú se pôs em pé, sobre o galho em que estava e, numa posição altiva, mergulhou seus olhos em mim e bateu no peito por duas vezes. Coisa que até então eu só havia visto os guerreiros daquela tribo fazer. Acho que ele queria me dizer que agora era um guerreiro, ou estava prestes a se tornar um. Ele me forçou a levantar e fazer o mesmo, mas minhas pernas fraquejaram, meu coração rasgava meu peito e minha respiração estava me fazendo ver cores à borda dos meus olhos, o que era impossível, àquela hora da noite.

Acordei perto de uma chama, amarrado a uma árvore na periferia de um grande buraco no chão. Sobre esse buraco estava uma grade, uma grade decorada com pedras e panos coloridos, um desses panos ficava no fundo da grade e era de um vinho vivo. Minha curiosidade ferveu quando o pano se moveu lentamente uma, outra e então outra vez. Olhei com atenção por entre as grades e pedras e panos e vi uma forma triangular e uma forma redonda. A forma triangular se movia mais rapidamente e a redonda seguia, vezes sim, vezes não, mas sempre mais lenta. O que poderia ser aquilo?

Com metade do meu corpo sobre a grade vi um focinho saindo da ponta da forma triangular. Poderia dizer que nos "vimos" simultaneamente, porque aquele focinho acelerou para a borda do buraco com uma velocidade inacreditável na minha direção, com presas brancas enormes, deixando o cobertor vinho para trás e revelando a presença gigantesca de um urso negro.

Devo ter desmaiado de novo. Senti uma dor avassaladora na minha mão esquerda e, ao olhar, vi faixas cobrindo a ausência de um dos dedos, o anelar. À época pensei que eles haviam dado meu dedo ao urso, depois percebi que não foi exatamente isso. Acabou sendo mais fácil conviver com a falta do dedo do que  explicar à minha Lia o sumiço do anel.

Fomos aleitados e cobertos com panos limpos. Eu e o urso. Tomávamos sucos adoçados, preparados especiais, comíamos o que havia de melhor. Depois da terceira noite meu receio de que eles cortariam outra parte do meu corpo foi se desvanecendo. Estava claro que o urso havia arrancado aquele dedo e eu havia desmaiado. A cada dia me convencia de que o urso se irritou ou fascinou com o brilho do anel ou simplesmente eu havia colocado a mão para a frente esquecendo que havia, entre suas presas e garras e eu, uma grade que me protegeria se eu desse um salto para trás. Engordei nesse meio tempo. Bastante.

Aos poucos comecei a compreender a lingua dos familiares de Pé-nú. O urso era uma divindade da montanha e uma espécie de "espírito da lua". Comecei a pensar que aquilo fazia sentido porque o urso desaparece no inverno, quando a lua está mais longe daquelas ilhas no horizonte, e reapareceria na primavera, quando o urso termina de hibernar. O pouco que eu compreendesse ali teria de ser o suficiente ou entendi errado. O fato é que o urso era o espírito ordenador ou divisor. Dividia os quatro momentos do dia, as estações do ano, os elementos. Percebi a relação dele com os elementos quando um xamã desceu, embriagou o animal e fez pequenos experimentos com sopros, pedras, água, madeira, ferro e fogo. A cada um ele respondeu de uma forma, e o xamã pareceu às vezes preocupado e às vezes contente.

Um dia trouxeram uma corda bem grossa. Amarrada em forca. Estavam muito tristes, mas resolutos. Parecia uma tristeza ritual, fingida. Tiraram a grade, embriagaram o animal, ofereceram um banho ritual ao urso que demorou-se em cantos e pétalas de flores. O animal, embriagado, foi amarrado à forca e içado usando-se, para isso, a árvore em que eu estava amarrado. Foi um espetáculo terrível. A dor do peso monumental do animal sendo tensionado pelo seu pescoço parecia trazer rapidamente a consciência de volta, mas não foi o suficiente. Em poucos minutos a energia vigorosa de seus músculos relaxou, para sempre. Todo esse espetáculo me enojou, as comidas que deram ao animal também foram oferecidas, como sempre, a mim, e minha glote já estava se preparando para devolver tudo diretamente ao buraco de onde meu companheiro de cela havia sido dolorosamente içado. Foi quando, num arroubo de sanidade, vi Pé-nú com a mesma expressão ritual de tristeza, caminhando em minha direção, com os braços baixos. Na sua mão direita, uma corda.

O zunido ensurdecedor de mais de trinta arcos simultaneamente vazando o ar ao meu redor jogou meus olhos para o grande urso negro, agora crivado de flechas. Voltei para Pé-nú, de olhar resoluto a menos de três passos de mim. Me levantei. Coloquei os pés na largura dos ombros, virados para frente, estufei o peito, arregalei ao máximo meus olhos, peguei minha coxa com a mão esquerda e, jogando o cotovelo direito para fora do corpo, bati com a mão direita fechada no meu peito, por duas vezes. Foi o que vi Pé-nú fazer no galho, foi o que me veio à mente. Foi o que me salvou a vida.

Antes que eu fosse embora eles me presentearam com um dente do urso. O mesmo tipo de dente que eles colocavam, afetuosamente, sobre os berços das crianças, como as patas e garras que colocaram sobre as portas das casas, rezando em minha despedida, para que a força vital do urso pudesse retornar dando a eles mais força e astúcia, para que o "espírito do velho", do "avô da floresta", retornasse para conviver com eles e os alimentar de força e sabedoria. Para que ele não praticasse a possessão, mas se prestasse a ser parte da magia e da vida daquele povo.

Ao ir embora tentei explicar para Pé-nú que seu povo estava morrendo, que era preciso ir a novas ilhas, que o progresso estava chegando e os destruiria. Afinal, que suas crenças não faziam o menor sentido! Ao que ele me respondeu algo como: "Estamos morrendo sim, você tem razão. O avô do avô do meu avô costumava caçar sete ursos por vez e esse ano só tivemos um. Então nosso povo está fraco. Quando tivermos mais ursos então. Aí talvez o seu povo fuja de nós."

Conto e Receita: Renato Kress

segunda-feira, 25 de março de 2013

A máquina

- Então é assim que tudo funciona por aqui, Fernanda.
- ..."tudo?" como assim "tudo"? Eu acabei de chegar, não sei sequer o seu nome... Espera aí, que lugar é esse?
- Prazer, Deus. Esse é o lugar onde fabricamos as mentiras. Todas elas. E é preciso não perder tempo. Eu expliquei tudo. Não me interprete mal, mas é isso. Você não estudava ouvindo gravações de aulas enquanto dormia? Te expliquei com você deitada ali, você ouviu. Confia, tá tudo no inconsci...
- Para tudo!
- Não dá. Isso assim não tem como "parar", minha filha. Agora fica aqui com Deus que ele vai...
- Espera! Você me disse que era Deus!
- E sou!
- E agora está apresentando esse outro aí. Ele nem parece Deus!
- E eu pareço?
- Bem, mais que ele, sim!
- Olha - com licença Deus, já te chamo de volta - vamos do começo: você morreu e então estamos aqui. Deus então me pediu para te explicar como funciona esse setor e você dormiu no meio da explicação. Tudo bem, acontece quando a gente chega, ficamos meio moles mesmo. Mas não podemos parar, sabe? Essas mentiras não se criam sozinhas! Você tem que afrouxar os parafusos delas todas, senão duram demais!
- Isso aí é uma mentira?
- É. Como tudo mais aqui.
- Mas se você é Deus...
- Eu e Ele ali e aquele cara lá no alto também...
- E eu?
- Olha, na verdade você também, mas isso vem com o tempo, não precisa se apressar...
- Mas porque temos que ficar aqui fabricando mentiras?
- Na verdade estamos afrouxando verdades...
- ...que seja. Mas por que isso, com que propósito?
- Lembra do Ernani?
- Meu marido.
- Ex-marido. Você morreu, Fernanda.
- Sim, o que tem ele?
- Você amou ele todos os seus dias?
- Claro! Levamos uns 30 anos para nos encontrar e nunca mais estive com nenhum outro homem depois!
- Nunca?
- Claro que não!
- E o Samuel?
- Que Samuel, você está louco? O Samuel foi um namorado de faculdade, isso não faz o menor sentido!
- Nunca transou com o Ernani pensando no Samuel?
- Que mente podre a sua, hein "Deus"!
- Você vai querer mentir para mim?
- ...tá, e daí? Pensei no Samuel sim! Duas ou três vezes!
- Quatrocentas e oito...
- Como assim?
- Fabricamos aqui, sabe? Tá vendo aquele ponto verde saindo daquele tubo azul piscina?
- A-hã.
- É um "Gustavo", mas só na casca, o miolo é "Antônio".
- E por quê se fabricam mentiras no Céu?
- Pensa nos impostos que você pagava, lembra do IPVA? Eu te peço IPVA e você lembra dos buracos na rua. Lembra  nas vezes que a Paulinha e o Felipe te atrasavam para o trabalho brigando ou quando você queria dormir até mais tarde e dizia "tá tudo bem"? Então. Vê aquela cachoeira de bolinhas ali?
- Uau! Que incrível! Como pode algo tão grande? O que é?
- A saída do tudo do "tá tudo bem", é uma das nossas maiores refinarias!
- Tem maior que essa?
- Claro! Várias! Algumas piorando a situação, outras melhorando, depende mesmo do interesse de quem precisa. Aí nós vamos lá e criamos, por isso você está aqui.
- Eu vou criar mais mentiras?
- Sim, temos uma demanda inesgotável! Quando estamos lá do outro lado estamos mergulhados nelas, quando estamos aqui estamos criando elas. É assim que funciona! Você lembra das aulas de física no colégio, de ótica? Sei que lembra. Lembra do fenômeno da "refração total" quando o ângulo da luz incidindo sobre a água vai aumentando até que toda a luz é refletida de volta e não entra mais na água? Então, é isso! "Lá do outro lado" somos peixes! A gente não suporta o ar! Muito ar nos mataria! Pense onde você estaria sem todos esse "tá tudo bem", "eu te amo", "nada não", "sem problema", "eu me lembro sim" e "eu não me importo"...
- Então você está aqui para enganar todo mundo?
- Eu e você! E isso é um trabalho de amor! Onde você estaria sem todas essas engrenagens? Tá vendo aquele "vai ficar tudo bem"? É do Ernani... pra Paulinha...

Conto e Receita: Renato Kress

terça-feira, 19 de março de 2013

Anais das imperatrizes da água

"...
A água, meu Senhor, flui do mais alto para o mais baixo, levando consigo tudo o que não tiver boa estrutura, toda forma solta que esteja insone, despregada de raiz e sem a devida atenção. A água se move em ondas, em filetes e em rios, como a seiva vermelha nas tuas veias, como o sangue verde esbranquiçado dos troncos. Um veio d´água irradia filetes de vida para dentro da terra onde o solo breve proliferará sua pelugem verde onde o Senhor descansará seus cabelos. A água traduz movimento em vida e é necessário honrar o que ela traz, Senhor.


Honrar os presentes da água é honrar aquilo que chega e te acelera as águas internas, aquilo que te flui intenso e ondeia forte nas praias do coração. A água, Senhor, fará de palavras pétalas e de pétalas sílabas e de sílabas contratos e então será preciso honrar os contratos, nutrir a quem te nutre.

Haverá imperatrizes das águas, todas fluidas e lânguidas e lívidas e a corrente que verter elas até você terá de ser alimentada. Há de encontrar-se a nascente desses rios não para controlá-la, mas para preservá-la..."

 - Pedaço do manuscrito tropeçado nos meus pés por uma onda, em um sonho.


Conto por Renato Kress

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Tributo aos fracassos anunciados



- Fico me perguntando, com esses teus olhos curiosos, quando você vai começar a falar. Ou se além do que você vê, ainda vai me obrigar a começar essa conversa. Conversas aliviam, garoto. Não importa muito a ocasião, conversas aliviam. Será que você está aqui por isso?

E o homem, amarrado num mastro, a trezentos metros da praia, sobre uma balsa de madeira, sorri alucinadamente como se lembrasse de uma velha piada e cospe um dente que cai quicando no chão e fica preso numa fenda.

- Ahhh!!! Sabe a quantos dias estou empurrando esse dente com a língua, garoto? Esse mesmo aí que você virou a cara quando quicou na madeira. Vai saber quando você estará virando as costas para a vitória de alguém, não é mesmo? Isso aí preso na madeira é uma vitória, moleque! Toda vez que tiramos um obstáculo, por mínimo e imbecil que possa parecer, menino. Olha bem! Esse brilho branco é minha vitória! É provável que seja a minha última, então porque vou esquecer de honrar? Quem vai me impedir de valorizar esse maldito obstáculo cuspido para o quinto dos infernos, a satisfação do gosto do meu sangue enquanto a minha língua passeia por esse último buraco?

Jogou a cabeça para trás com força para tirar a franja de cima do olho esquerdo e bateu oco no mastro. Os olhos se fecharam com pressão e dor. Via fagulhas e pontos negros na periferia do olhar. Encarou o rapaz, sentado num bote, olhando para ele, fixamente.

- Sabe por que isso é uma vitória? Olhando os cacos? Já te explico eles também. Você vai entender o sangue e o dente. Se você veio atrás de uma boa história é bom que tenha boa memória também. Me irrita que as pessoas façam o que eu faço: colocar detalhes e florear os acontecimentos do que realmente se passou. Vamos combinar que o que eu invento é o suficiente? Talvez você aprenda algo com o que vai ouvir, então um brinde!

Olhou atentamente a cidade e o amanhecer, por alguns segundos.

- Eu quero propor um brinde, me olhe nos olhos! Isso. Um tributo a todos os meus fracassos anunciados! Brindaremos aqui, você e eu, um velho pirata e um garoto sem nome. Beberemos o suor que escorre aqui das nossas testas e de nossos rostos. A esse sol que está nascendo! A esse sol vulgar de todos os povos, que não tem a menor dimensão nem consciência de que é o meu último sol. A esse sol que não se importa. A esse sol, a esse sal, a esse mar.

- Um tributo à minha burrice! A como ela começou a carcomer minha vida, quando eu tinha uns dez anos a mais que você deve ter agora. Um brinde a quando fiquei famoso por duas ou três besteiras na cidade e isso chamou a atenção de certas pessoas. Não me lembro bem de tudo, mas uma delas foi ter achado um pedaço de papel molhado no chão, a caminho de uma taverna. Queria usar ele para fazer um desenho para Margueritte, uma linda paixão de bordel. Sem sorrisos! Quando a gente fala "paixão" seguido de "bordel" se entende que a coisa toda funcionava embaixo do umbigo, garoto. O papel era bem trabalhado, fino, e eu fui secado ele usando uma vela. Tava numa mesa de canto, sozinho. Quase ninguém viu as manchas escuras que viraram letras ali. Era uma mensagem para alguém importante. Entreguei a mensagem e isso me deu crédito perante as pessoas certas. Queria dinheiro fácil e o que me pagaram foi com confiança e com ela em alguns dias recebi um emprego diferente. A coisa toda era continuar sendo o tal "rapaz de confiança". Um brinde ao "rapaz de confiança", então! Ouvi tanto isso que por um tempo achei que fosse meu nome. Em alguns dias já sabia fazer parte da tripulação de alguns navios certos, em semanas conhecer pessoas certas, em meses interceptar certos documentos e, em menos de um ano aprendi a afundar uma navalha em alguns pescoços. Guarda que um dia isso te será útil: Pescoços são bons,  dão certeza.

Parou por alguns instantes, jogando o olhar para o perto de sua orelha direita, como se lembrasse algum som em especial ou ouvisse uma voz invisível.

- Seu olhar não me é estranho, garoto. Não me é estranho.

De repente o homem pressionou bem a boca e gritou:

- Um tributo! - Chegou a gota de sal aqui! - A todos os meus fracassos anunciados! Aos pequenos e aos gigantescos suicídios diários! Um brinde a cada paixão de taverna, a cada aperto de mão que me levava para outras praias, países, continentes, a cada milha percorrida e aos pequenos sucessos que não fizeram mais do que esticar minha esperança para que minha vida pudesse comportar mais e maiores fracassos no futuro! Um brinde às aventuras, aos documentos que perdi tentando salvar meu traseiro de balas e lâminas, em especial uma última gota amarga de sal por essa missão última, razão de terem me deixado aqui para morrer, preso nesse mastro, sobre uma balsa ancorada esperando a maré subir. Ninguém se importaria em passar uma corda no meu pescoço e entregar as sobras a uma cova, mas é preciso dar o exemplo aos próximos eus que virão e eu sempre fui um "homem de confiança", então aqui estou, a vista de todos na cidade. Um "homem de confiança", morrendo como um "homem exemplar". Se algum dia tive filhos seria engraçado lhes dizer isso na cara. Vim em busca do segredo que por aqui não é segredo, mas de onde vim é. O segredo de se colorir o vidro. Vocês aqui tem o conhecimento que algumas pessoas acharam que valia uma viagem de três anos e um espião "de confiança", o mesmo conhecimento que algumas pessoas por aqui decidiram que era importante demais para que eu levasse comigo! Um novo brinde! Agora é o bigode que me traz esse suor salgado! Um brinde à filha do vidraceiro, aos olhares noturnos dela, a como ela soube me seduzir e usar. Um brinde a como ela não era sequer bonita, meu Deus! Um brinde aos meus fracassos anunciados, a como ela me contou os segredos das cores dos vidros, enquanto me drogava, e a como ela me fez mastigar mais de vinte cores de cacos enquanto terminava de me amarrar, com o pai, aqui.

Conto e receita: Renato Kress

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Aquele beijo

Foi numa festa. Na verdade no fim de uma festa. Éramos amigos, e ele sempre contava muitas histórias. Fomos para longe das luzes e das vozes. Ele sentou do meu lado, olhou meus olhos e apontou as estrelas. Era sempre assim que começavam as histórias. Pelo menos as dele. À medida que os dedos dele passeavam de constelação em constelação eu ouvia um solo intenso de piano que tocava na minha alma (ou longe? na festa?) enquanto meus olhos, bem abertos, projetavam meu corpo em vôos alucinantes por entre as árvores para depois se perder naquelas estrelas. Era assim que começavam as histórias dele. Era assim que eu me preparava para ouvir.

- "Fecha os olhos e solta a voz no mundo. O corpo retorna pra lá quando tem de retornar. Não antes. Você foge muito, menina. Sabe? Alguns heróis, quando morrem, viram estrela. Talvez alguns de nós, depois de muitas mortes, morremos estrela, mas nunca antes. Para viver - não é respirar e andar ou atrasar nosso enterro enterrando cada dia numa massa cinza inferior à gente mesmo, digo para viver vivido, para tocar a alma do mundo com o caminho dos pés - aí é preciso vários momentos de bem morrer. Mas olha, por favor, não morra antes de morrer."

Ele tocou minha cabeça duas vezes, com força, e sorriu.

- "A gente se engana muito, sabia? Aqui você desaprende. Aí que a coisa toda desanda. Um pouco de tempo e as teias traçadas aí em cima viram a raiz dos piores cogumelos. Você ri? Eles implodem! Com o tempo isso vira um campo minado e aí te convence a parar de acreditar. Primeiro em uma pessoa, depois várias, logo muitas e, por fim, você desacredita de você. É desacreditando que você deixa de morrer e, enfim, morre. Parece que não, mas vai que tem algum sentido, escuta. Quando você desacredita bem desacreditado mesmo no presente ou no futuro é que você não deixa o passado morrer direito, aí, com um pouco mais de tempo, a sua semente morre semente e nunca flor nem fruto. Isso aí, se dominar, vai querer te dar certeza e chão e terra. Mas olha o mundo. Acha que o mundo precisa de mais terra e pedra? E se precisar, não vai ser de você. Você é o que você está se tornando, sempre. Vida vem com a terra, mas é mais que isso, é vento e água e fogo e nunca só um. É, eu bebi... Com o tempo, com um pouco de mente e tempo, você desacreditará no controle do teu pensamento, a palavra que te sai não vai dar medo no mundo para criar o novo, e aí, quando tua palavra perder a magia, quando a voz da sua voz morrer antes do som, a mão vai perder deus e o ato vai brotar mecânico, óbvio, sem dança. E é preciso dançar o futuro, sabe? Como num salão bem cheio, tipo aquele que a gente evita, lá atrás. No salão, na dança, você prevê o movimento, o que você quer do movimento, mas aí tem o salão e os outros dançando e as luzes e a bebida escorrida no chão e a batida do momento. É a batida que dá o ritmo, e a coisa toda é feita de ritmos, sempre. E aí em cima não bate."

Ao longe a gente ouvia "Walk on the wild side". Ele tocou meu peito e colocou a boca no meu ouvido.

- "Bate aqui."

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A banheira de Agamêmnon

A televisão, alta, podia ser ouvida de dentro do banheiro onde ela tomava uma longa e morna ducha. Queria que seu coração desacelerasse, mas mesmo por baixo da água quente e que descia pelas suas costas e cabelo, as pupilas pareciam latejar, as mãos tremiam e uma sensação deliciosa de poder e potência parecia dançar sobre a superfície da pele de Luzia. Os sons ainda ecoavam pela sua cabeça, todos eles.

A televisão não parava: "Um dos mais violentos crimes já presenciados na cidade! Desfigurado e decapitado, por uma pá de pedreiro, o corpo e a cabeça do senhor Manoel Constant foram encontrados em duas lixeiras diferentes na saída dos fundos de uma boate..."

A cabeça de Luzia escorregava pela banheira, mergulhando suas costas trêmulas e nuca sob as águas mornas, na esperança de controlar a respiração curta e acelerada, ritmada pelo coração e as pupilas dilatadas. Ainda submersa sentia o som e a vibração do ferro e a textura da madeira sobre seus dedos leves e gelados. Os sons ecoavam pela sua cabeça. A cada vez que emergia a cabeça daquele lodaçal e frenesi de si mesma, abria bem olhos e ouvidos. Pedia para ouvir mais que a televisão, queria ouvir alguém na porta, arrombando, esmurrando, apontando armas e dedos para ela.

Mas era só a repórter, com mais detalhes. Todos inúteis: "Na pá ajuntadeira quadrada número quatro da marca momfort não foram encontradas impressões digitais, apenas as marcas do sangue da vítima que espirrou na parede e no chão do beco na entrada lateral da cozinha da boate. Ao que parece não houve nenhuma testemunha e a música deve ter abafado os possíveis sons..." Agora era só manter o drama e mostrar novas imagens por trinta minutos para alavancar o ibope e vender horário comercial.

Luzia olhou para a tampa da privada, as duas luvas de couro e látex estavam ali, como se sorrindo. Ela ainda não conseguia parar de tremer. Mesmo sentada na banheira não conseguia firmar os pés e achava que ia desmaiar. Girou a torneira enquanto a chuveirada se tornava um filete de água delgado que ela deixou escorrer pelo meio dos seus cabelos até a testa, descendo pelo nariz para ter seu mergulho interrompido pela língua de Luzia, que num bote, tragou aquele último vestígio de sentimento. Seus olhos arregalaram para imediatamente cerrar, enquanto suas pupilas voltavam ao normal. Um último calafrio percorreu seus ombros e desceu pela sua espinha até seus pés, que imediatamente pararam de tremer. Ela se vestiu, se perfumou e esperou. As luvas não sorririam para sempre. Eles chegariam a qualquer momento.

A televisão nunca disse que "Manoel" Constant, a "pobre vítima de um ataque de fúria assassina, que deformou a lateral esquerda de sua face e o decapitou a golpes de uma pá ajuntadeira quadrada número quatro", o "pai de família e sóbrio homem de negócios haitiano", o "gentil pai e amigo" pelas palavras de seus vizinhos entrevistados, era um refugiado. Menos ainda mencionaram ser ele um tipo específico de refugiado. Alocado no "Queens" com ajuda do governo norte-americano, Mr.Constant degustava sua merecida aposentadoria como chefe da força paramilitar haitiana FRAPH através da qual ele foi responsável direta e indiretamente pelo assassinato de quatro ou cinco mil haitianos, no início da década de 1990. Dois desses haitianos ainda sorriam, em preto e branco e sépia, com os rostos colados num emaranhado de 3x4, na carteira de Luzia.

Receita e conto: Renato Kress

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Um pouco de "para sempre"


Nossa, sinto uma saudade às vezes de você, sabia? Penso que sou louca. Devo ser. Como pode uma saudade tão boa de algo que talvez nunca tenha existido e nunca voltará - como poderia, não é? E fica aquela lembrança do seu sorriso, carregado de carinho e perversão. Penso que a vida vale a pena por esses detalhes ridículos, tolos, banais. Será? 

Aquele ano novo que passamos juntos na areia, quando transamos no banheiro daquele conjugado, rindo na orelha um do outro para não acordar minha irmã, o namorado dela e mais dois amigos que fingiam que dormiam no quarto. Tenho certeza de que desse dia você se lembra. Difícil vai ser você lembrar daquele dia que pedalamos juntos e conversamos sentados nas mesas de pedra enquanto você ficava pegando sol, me respondendo sem me olhar.

Eu te via o tempo todo, sabe? Mesmo quando você não estava nem aí para mim. Eu sempre te vi. Acho que te via antes de te conhecer. Talvez por isso não te telefone mais. É que você está como sempre esteve antes de estarmos juntos. Você está sempre dentro.

Eu queria não ter tido você para não saber o que é te perder, perder você chegando do supermercado com sacos de macarrão e molho de tomate dizendo que ia cozinhar pra gente, você começando a cortar o tomate para fazer o molho e me pedindo ajuda pra picar o manjericão, depois a cebola e a cenoura e quando via eu já estava mexendo a massa, com tudo cortado e você baixando meu short e beijando minha nuca, ali, na beira do fogão. Acho que você nunca cozinhou nada que eu não terminasse, mas não posso reclamar, você também nunca terminou antes de mim.

Acho que a vida é feita dessas coisas sabe? Percebi outro dia, tropeçando com você na rua, apressado conversando com uma morena muito alta, que não tenho nenhuma foto sua comigo. Não sei se gostaria ou não. O fato é não tenho. Nem para desgostar da foto eu tenho uma. O melhor de tudo é que você se assustou comigo, quando nos cruzamos, e ficou ressabiado, com cara de culpado e sem jeito. Sei que nunca conseguiria dar um ponto final na nossa história, então naquele dia, eu voltando de um café, você indo sei lá para onde com a morena, dei um ponto através dos teus olhos. Você é tão cheio de si, sempre. Ali foi a primeira vez que te vi sem graça. Quando teus olhos me viram eu li que alguma coisa por ali, alguma coisa entre a gente, seria o nosso tal "para sempre".

Conto e Receita: Renato Kress


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